quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O encontro marcado (1956)


SABINO, Fernando. O encontro marcado. Rio de Janeiro: Record, 1998.

            Ler o “O encontro marcado”, sobretudo quando se é jovem, como no meu caso, é ver transcrito em palavras o que se sente na passagem da adolescência para a vida adulta. De acordo com Tristão de Athayde, essa obra representa “o drama de uma geração, de uma idade, de uma época social”; eu diria, porém, que “O encontro marcado” nos põe em contato com o drama de todos os jovens, que não raro se sentem angustiados sobre o que fazer da vida.
Durante a experiência de leitura da narrativa, acompanhamos o crescimento de Eduardo Marciano, mineiro de Belo Horizonte que sonha em ser escritor. Eduardo e seus amigos, Mauro e Hugo — familiarizados com os acontecimentos do mundo literário — criticavam o parnasianismo, considerado superado. O delegado, por sua vez, contrapunha-se ao pensamento dos meninos:

— Superado o parnasianismo? Ora, vamos deixar de bobagem, meninos! Depois de Bilac o que foi que houve no Brasil, hein? Me digam! Pois fiquem sabendo que Alberto de Oliveira... (SABINO, 1998, p. 59)

Desde já notamos a tensão entre o novo e o velho, que se mantém no romance. No decorrer da história, outrora rapazes, Eduardo e seus amigos é que envelhecem e têm que lidar com o aparecimento de uma nova estética literária: o concretismo.
Mais do que isso, eles têm que lidar com a verdadeira angústia, que nada tem a ver com aquela que eles buscavam enquanto jovens, e que se fazia presente apenas por encenação. O terror, de que tanto fala Kafka, vai além das letras e surge, quando menos se espera, no cotidiano.

Apoiou-se à parede — seu corpo tremia, o coração disparava e todo ele parecia tocar o mais fundo da angústia. Sim, ‘aquilo’ era angústia. Num grande esforço tentou ainda ordenar os pensamentos, entender as coisas ao redor — não entendia mais nada. (SABINO, 1998, p. 177)

Quando rapaz, Eduardo conhece um escritor fracassado, chamado Toledo. Este lhe apresenta diversos cânones literários e lhe dá várias dicas sobre como seguir pelo caminho das letras. De todas as falas desse personagem, esta é a que me parece mais significativa, a ponto de querer registrá-la aqui:

— É um bom começo saber isso: não ter medo de nada, nem de morrer. Você tem medo de morrer? Então desista de uma vez, porque morrer não tem importância — Mário de Andrade morreu e está mais vivo do que eu, do que você. Estou repetindo palavras dele! Tenha medo é dos escorregões. Não escorregue, caia de uma vez. Os medíocres apenas escorregam. Os bons quebram a cabeça. Você é dos bons. Pois vá em frente! Pague seu preço e Deus o ajudará. (SABINO, 1998, p. 241)

É bastante relevante o fato de que, durante todo o romance, destacam-se diversos apontamentos sobre o que é ser um bom escritor e romancista. Eduardo, por sua vez, dedica-se a escrever artigos sobre isso, no entanto, não consegue escrever obra alguma.
A vida do personagem é repleta de frustrações, pois, além da incapacidade para criar uma obra de arte, não consegue sustentar seu casamento com Antonieta e tampouco consegue ter um filho com ela, que sofre um aborto espontâneo. Do mesmo modo, perde a oportunidade de ter um filho com outra mulher, Neusa, ao permitir que ela vá a uma clínica clandestina abortar o feto.
Ao retornar a Belo Horizonte e a Juiz de Fora, onde serviu ao exército — passado anos no Rio de Janeiro — Eduardo tem a sensação de estar em um cemitério, pois já não poderia encontrar nesses lugares o que havia vivido. Ao encontro que havia marcado ainda na infância com seus amigos, no ginásio, só ele foi; provavelmente, porque era o único nostálgico, que lamentava o que eles queriam ser, mas nunca foram.
A história de Eduardo Marciano, desse modo, é a trajetória de muitos de nós, que procuram por um sentido para a vida. Não à toa Sabino dizia que escrevia para tentar entender. Talvez seja esse o porquê do romance: uma tentativa de compreender o mundo, Deus e as angústias humanas. Sem dúvida, um belíssimo romance.

Fernando Sabino (1923-2004)

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

O amante do vulcão (1992)


SONTAG, Susan. O amante do vulcão. Tradução de Isa Mara Lando. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

O romance histórico “O amante do vulcão”, da autora norte-americana Susan Sontag, é contextualizado no século XVIII, de modo que a autora discorre sobre o período da revolução francesa (1789-1799) e sobre o impacto dessa revolução em Nápoles, que na época era governada pelo rei das Duas Sicílias Fernando I e por sua consorte Maria Carolina de Habsburgo-Lorena (irmã de Maria Antonieta).
Com a queda da monarquia francesa e com a morte dos reis da França na guilhotina, em 1793, o rei e a rainha de Nápoles decretaram que todos aqueles que simpatizassem com os jacobinos deveriam ser punidos. Desse modo, muitos aristocratas da época morreram. No romance, Sontag (2006) descreve a morte de um duque que sequer era republicano, mas, por ter diversos livros e obras de artes, foi acusado como tal e assassinado pelo povo, que apoiava a monarquia.

Apesar do grande número de convertidos que as ideias esclarecidas haviam feito na classe alta, um número ainda maior de privilegiados era constituído de colecionadores, e os colecionadores têm grande dificuldade de aceitar as consequências de um levante revolucionário. Suas posses são um investimento no velho regime, por mais volumes de Voltaire que tenham lido. Uma revolução não é um bom momento para os colecionadores. (SONTAG, 2006, p. 272).

Nesse contexto, três personagens se destacam: Sir William Hamilton, embaixador britânico no Reino das Duas Sicílias, sua segunda mulher, Emma, e lord Nelson, herói marítimo da Inglaterra, que apoiou os reis de Nápoles na repressão àqueles que simpatizavam com os jacobinos.
Sir William Hamilton – o Cavalieri – é colecionador de obras de arte e de antiguidades, além de vulcanólogo. O vulcão da cidade italiana – chamado Vesúvio – serve de metáfora aos acontecimentos ocorridos, pois, ao se igualar à natureza, o homem se sente no direito de realizar qualquer atrocidade:

Cada um projeta no vulcão a quantidade de raiva, de cumplicidade com a destruição, de ansiedade quanto à capacidade de sentir que já existe na sua cabeça. O marquês de Sade tirou de sua estadia de cinco meses em Nápoles, perto do Vesúvio então adormecido, as fantasias de maldade que qualquer coisa capaz de violência lhe inspirava. (SONTAG, 2006, p. 88).

Vamos adotar um enfoque positivo. A montanha é um emblema de todas as formas de morte por atacado: o dilúvio, a grande conflagração (‘sterminator Vesevo’, como diria o grande poeta), mas também de sobrevivência, da persistência humana. Neste caso, a natureza soltando sua fúria cega também faz a cultura, faz artefatos, ao assassinar, ao petrificar a história. Em desastres assim, há muito para se apreciar. (SONTAG, 2006, p. 118).

É importante ressaltar que a narrativa de Susan Sontag, para além de revisitar um determinado período histórico, discorre sobre a história das mulheres. Ao nos contar a trajetória de Emma, esposa do Cavalieri e amante do herói, a autora enfatiza o condicionamento imposto às mulheres para que estas se adequem a estereótipos de fragilidade e de sensibilidade:

Parece ser a mais cruel apenas porque é a mais emocional – o que se espera que as mulheres sejam. E as mulheres emocionais que não detêm o poder, poder verdadeiro, em geral terminam sendo vítimas. (SONTAG, 2006, p. 312).

Outra personagem importante citada no romance é  Eleonora de Fonseca Pimentel, intelectual da época que fundou o jornal oficial da República Napolitana e que acabou condenada à forca. Por ser um romance polifônico, Eleonora Pimentel é uma das vozes da narrativa, ou melhor, é a voz que encerra a narrativa e que, por ser mulher e republicana, expõe uma visão crítica sobre as personagens daquele período histórico.
Sendo assim, fica claro que William Hamilton não passava de “um diletante da classe alta desfrutando das muitas oportunidades disponíveis num país pobre, corrupto e interessante para surrupiar obras de arte!” (SONTAG, 2006, p. 421). O Cavalieri, mesmo quando se sentia incomodado com uma determinação monárquica, não deixava de lado a passividade. Lembremos que os que não são nem maus nem inocentes também cometem crimes atrozes.  
Quanto à esposa do Cavalieri – Emma – como bem pontua Eleonora Pimentel, era uma entusiasta capaz de se aliar a qualquer causa defendida pelo homem que amasse. “Esta é a nulidade de mulheres como ela”, diz a republicana, porque Emma sacrificou sua mente à ideia trivial que se tinha do seu sexo, e claro, acabou como vítima, tendo em vista que era uma mulher que não detinha nenhum poder. Infelizmente, Emma simboliza a história de diversas outras mulheres, que no ímpeto de querer agradar aos homens, tornam-se vítimas de uma sociedade misógina e patriarcal.
Portanto, “O amante do vulcão” é uma crítica aos sujeitos que, julgando-se civilizados, importam-se apenas com sua própria glória ou bem-estar. Na verdade, não passam de seres desprezíveis, que são considerados vencedores porque são transformados em força da natureza e, como tal, são irredutíveis, por isso, semelhantes ao vulcão. De acordo com Sontag (2006), para irmos além da natureza, é necessário cultivarmos a compaixão.

A compaixão, que não é o perdão, significa não fazer aquilo que a natureza, e o interesse próprio, nos diz que temos direito de fazer. E talvez nós de fato tenhamos esse direito, e esse poder. Mesmo assim, como é sublime não fazer. Nada é mais admirável que a compaixão. (SONTAG, 2006, p. 319).


Susan Sontag (1933 - 2004) 

domingo, 30 de agosto de 2015

O Castelo (1922)


KAFKA, Franz. O castelo. Tradução de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

Concluí hoje a leitura d’O Castelo, do tcheco Franz Kafka. Não é a minha primeira experiência com uma obra do autor, que aliás, muito me encanta e agrada, porque Kafka sabe nos transportar para um mundo de horror e desespero — onde as coisas acontecem sem que tenham compromisso com o entendimento normal das pessoas — sem que isso nos enlouqueça, mas antes, salve-nos de nossa própria cegueira diante das deformações humanas.
O protagonista do romance, Joseph K., chega a uma aldeia coberta de neve e procura abrigo no Albergue da Ponte, onde é recebido de modo pouco receptivo, por ser um estrangeiro. Ele explica, no intuito de ser aceito com mais simpatia, que está ali porque foi convocado pelo castelo a prestar seus serviços de agrimensor (profissão que, na realidade, nunca será exercida durante toda a história).
 Mesmo sem ter o que fazer como agrimensor, K. recebe do castelo dois ajudantes (Jeremias e Arthur), que por sinal, nada entendem de agrimensura. Sem entender o ocorrido, K. procura entrar em contato com Klamm, funcionário de grande importância do castelo, que determina a ocupação de K. na aldeia; no entanto, essa procura é inútil, pois Klamm nunca se deixa ser visto.
Aparentemente, apenas por meio de um mensageiro, Barnabás, K. poderá tentar entrar em contato com Klamm. Mas isso também é incerto, pois Olga, irmã de Barnabás, em uma conversa que manteve com K., disse-lhe que, mesmo o irmão, supõe que recebe as mensagens de um homem que, embora se identifique como Klamm, trata-se de algum outro funcionário do castelo.
Além do Albergue da Ponte, a Hospedaria dos Senhores também é um espaço bastante relevante na história, pois, como o próprio nome diz, é o lugar dos senhores, isto é, dos personagens do castelo, que se hospedam nessa casa quando vêm à aldeia. É lá que, supostamente — por concessão de Frieda, amante de Klamm e balconista da Hospedaria dos Senhores — K. vê Klamm por uma fresta da porta.
Frieda e K. assumem um compromisso amoroso, o que a leva a deixar o amante e o emprego de balconista. A princípio, tentam se estabelecer no Albergue da Ponte, mas a dona do albergue detesta K. e não pode suportar por muito tempo a presença dele. Por outro lado, ir para a casa de Barnabás, onde K. chega a afirmar que teria hospedagem, é inconcebível para Frieda que, assim como os outros habitantes da aldeia, julgam que a família do mensageiro é amaldiçoada e, portanto, deve ser discriminada.
Torna-se viável, então, a oferta do prefeito da aldeia, que lhe oferece o serviço de servente de escola. Por insistência de Frieda, K. aceita a oferta, de modo que o casal, mais os ajudantes, mudam-se para a escola. Tal contexto, contudo, é passageiro, porque K. não suporta mais os ajudantes e passa a maltratá-los, o que faz com que Frieda se apiede deles; ademais, certo dia, K. passa metade da noite na casa de Barnabás, conversando com Olga, o que provoca a ira de Frieda, que se sente traída e decide deixar aquele que seria seu marido.
Frieda também era um meio possível de estabelecer um contato entre K. e Klamm, mas, acima de tudo, ele a amava. De qualquer modo, quase todas as ações de K. na aldeia são determinadas pela sua ânsia de entrar em contato com Klamm, o que se revela um fracasso, porque ele está enredado numa rede burocrática que transforma os seres humanos em criaturas alienadas, as quais se posicionam de modo a manter o funcionamento da estrutura de um poder totalitário. K. até tenta questionar esse processo e se rebelar contra ele, mas face a um castelo e a homens do poder que se mostram inacessíveis, essa tentativa não o leva a lugar nenhum, ou melhor, leva-o ao desespero de se ver vítima do medo e da angústia.
De acordo com o posfácio de Modesto Carone, tradutor da obra kafkiana, há várias leituras possíveis para O Castelo. Entre elas, a que mais se destaca diz respeito à intervenção crítica de Adorno: 

se as narrativas de Kafka soam ‘metafísicas’, a culpa não é dele, mas da História a que ele está submetido. Num lance mais concreto, K. é (...) uma vítima da corrupção e do caráter associal de uma dominação criminosa e totalitária que prenuncia o fascismo (CARONE, 2008, p. 360).

Lido hoje, em tempos que o totalitarismo é um fantasma ainda disposto a nos assombrar, seja por intermédio do fundamentalismo religioso, ou de discursos reacionários, ou mesmo por meio da memória do passado, O Castelo, ainda que não prenuncie mais nada, é tocante no que se refere ao desespero do homem, quando muitas vezes este ainda se vê marcado por algum tipo de opressão ou de inadequação. É, portanto, mais do que tentador repetir o clichê de que, ao falar de Kafka, estamos nos referindo a um dos maiores gênios da literatura do século XX.

Franz Kafka (1883-1924)

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Solidão Continental (2012)



NOOL, João Gilberto. Solidão Continental. Rio de Janeiro: Record, 2012.

Neste texto, pretendo falar sobre as impressões obtidas a partir da leitura do romance Solidão Continental, de João Gilberto Noll. Aliás, essa é a minha primeira experiência com um texto do autor.
Segundo ouvi do próprio Noll, em entrevistas que podem ser encontradas facilmente na internet, a solidão é um tema recorrente em sua obra. Em Solidão Continental essa solidão assume proporções de caráter amplo, pois a jornada do protagonista por cidades diversas é sempre solitária.
Outra importante característica do personagem, que ganha a vida como professor de português para estrangeiros, refere-se aos desejos sexuais manifestados por ele que, de acordo com a minha percepção de leitura, ampliam o sentimento de solidão do protagonista que narra a história. Na maioria das vezes, ele sequer chega a conseguir concretizar os seus desejos, e mesmo quando concretiza, como ocorreu na juventude, quando se relacionou com Bill, trata-se de uma relação breve.
O passado, tempo o qual ele busca retomar quando chega a Chicago — ao procurar o hotel onde anos atrás esteve hospedado e manteve um caso amoroso com o americano Bill — estabelece o conflito com o presente, marcado pelo envelhecimento que, se por um lado, não altera sua obsessão pelo sexo e pelo amor, por outro, contribui para a deterioração do corpo.
Abaixo, destaco o seguinte fragmento do texto, para exemplificar esse conflito do personagem no que se refere ao seu medo de fracassar sexualmente, por conta da juventude que passara:  

 Sempre me perguntava se as pessoas percebiam em mim um obcecado pelas coisas do sexo ou do amor ou das duas coisas juntas. Nessa altura um elevado libertino sem ação, mas sempre a postos para cair no conto de qualquer libido espúria. Já um velho animal que não poucas vezes só de roçar o pensamento na pele imaginária já pegava no sono, distendido e lasso, com medo de fracassar. (NOOL, 2012, p. 12-13, grifo nosso)

Apesar do medo de fracassar, o personagem está constantemente em busca de um outro que preencha a solidão que o assola. Acompanhamos, então, o encontro dele com figuras que vão surgindo mas que desaparecem pouco tempo depois. Entre elas, a que ocupa o maior número de páginas é a figura de Frederico, jovem pelo qual o protagonista se apaixona e segue com certa obsessão. Este, em dado momento da história desfalece e é carregado pelo outro tal como Jesus no trajeto da Via Crúcis.    
Essa busca do personagem por um outro, por um amor, de Chicago a Porto Alegre, é o enredo base do romance, que é contado de maneira a expor mais a subjetividade do personagem do que uma história próxima de uma estética naturalista. De acordo com Noll, ele gosta de compor cenas difusas e imprecisas, mesmo porque, a nitidez do romance naturalista não condiz com a vida.
Além disso, o autor considera que a literatura tem a função de enunciar aquilo que é silenciado pela cultura dominante. Desse modo, o personagem expõe sem pudores seus desejos libidinosos e menciona excrementos produzidos pelo corpo humano, por meio da mediação de uma linguagem que se encontra no limite entre a prosa e a poesia.
Ao ler o romance, por causa dessas características, tive como primeira impressão uma sensação de estranhamento, mesmo estando acostumada a ler autores que destoam de uma estética naturalista. Mas não demorou muito para que eu usufruísse com prazer da obra de João Gilberto Noll, que nos revela um personagem cuja trajetória é narrada de acordo com o seu fluxo de consciência, expondo toda a crueza de sua subjetividade.    



sexta-feira, 21 de agosto de 2015

O homem-mulher (2014)

SANT'ANNA, Sérgio. O homem-mulher. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

Certa vez, ouvi de uma professora que os livros é que nos escolhem. Acredito que isso não possa ser dito em relação a todos os livros que lemos, mas alguns, de fato, parecem nos escolher. Entre eles, destaco neste texto o livro de contos “O homem-mulher”, do escritor carioca Sérgio Sant’Anna. Fui vista pelo livro numa tarde em que nem pretendia comprar nada, e se estava dentro de uma livraria, era apenas para fazer hora enquanto aguardava por uma amiga que estava atrasada.
Lá mesmo comecei a leitura do livro, ainda sem a intenção de comprá-lo, mas já aberta à possibilidade de ser seduzida. O conto de abertura do livro corresponde a primeira parte da narrativa "O homem-mulher", que conta a história de Adamastor Magalhães, ou Fred Wilson, ou Zezé. Este personagem denomina-se homem-mulher porque desde a adolescência sente prazer de se vestir de mulher, sem que isso esteja associado a uma homossexualidade. Ao contrário, o personagem é heterossexual. Vestir-se de mulher é apenas "um modo de ser", uma maneira de expor a feminilidade que é parte de sua identidade.
Adamastor Magalhães, ou Fred Wilson, ou Zezé é apaixonado por teatro. A primeira peça que encenou - As criadas, do escritor francês Jean Genet - foi em sua cidade natal, Belém do Pará, e permitiu ao personagem, por conta do papel feminino que deveria desempenhar, vestir-se o tempo todo de mulher. 
Esse foi o início da carreira teatral do personagem que, na segunda parte do conto, mostrada apenas no final do livro, decide mudar-se para o Rio de Janeiro e alugar um velho apartamento de subsolo na Lapa - bairro considerado tolerante para pessoas que, assim como ele, não se enquadram nos padrões de comportamento ditados pela sociedade - a fim de se estabelecer como ator, diretor e autor.
A peça escrita por ele, "Os desesperados", é uma mistura de ficção e realidade porque revela a própria história de Fred Wilson e dos outros personagens que o acompanham. É como se o personagem da peça atuasse para além dos palcos, isto é, Adamastor Magalhães não consegue se desvencilhar de seu personagem homem-mulher.
Outro conto que li ainda na livraria, trata-se de um diálogo com a obra do pintor norueguês Edward Munch: Madonna. O conto se refere a dois quadros roubados pelo personagem que narra a história: “O grito” e, claro, a “Madonna”. Quadros esses que, por serem muito famosos, não poderiam ser vendidos ou exibidos, de modo que ficaram restritos ao olhar do ladrão. Este diz assim sobre o primeiro quadro: 

O grito é o inferno que uma mente humana pode abrigar, o retrato do desespero sem fim, e, se o destruísse, gostaria que fosse com uma faca pontiaguda retalhando a tela, como se assim pudesse destruir toda dor e todo sofrimento. Mas quantos bilhões são os seres humanos e quantas e quantas vezes tal angústia não poderá se repetir? (SANT'ANNA, 2014, p. 55).


Conviver com "O grito" seria insuportável se não fosse a imagem da Virgem, da "Madonna", que "aplaca toda angústia" e "apaga todos os amores vividos, então tornados uma reles imitação, para ser para sempre o primeiro e único amor" (SANT'ANNA, 2014, p. 56). A Madonna, portanto, é quem ameniza o desespero humano e faz com que o sofrimento seja suportável.
À Berenice Azambuja, personagem de outro conto (As antenas da raça), parece entretanto só existir a imagem do desespero. Casada com um embaixador que sofre de mal de Alzheimer, ela decide oferecer uma festa às figuras de destaque do mundo diplomático, da cultura e da política. Na hora da refeição, é servido aos convidados uma sopa de ervas finas do Turzequistão. Mas, para a surpresa dela e do comendador que está ao seu lado, há uma barata na sopa da embaixatriz.
Por ser considerada uma exímia anfitriã, Berenice nega ao comendador que tenha uma barata na sopa e a come: “Com uma colherada da sopa deliciosa, sorveu decididamente a barata, para não ter de mastigá-la” (SANT’ANNA, 2014, p. 80). Esse ato de ingerir direto a barata, sem mastigá-la, manteve o inseto vivo dentro de si, para o pavor da embaixatriz, que não querendo também vomitar o bicho, quando se viu só, gritou e se jogou da janela, suicidando-se.
De acordo com a minha leitura, que ainda se revela ínfima neste texto, para Berenice, manter as aparências tem uma importância tamanha que a leva ao grito, ao desespero, ao desejo de destruir-se. Mais uma vez, assim como no quadro de Munch, o grito aparece como o retrato do desespero sem fim, e como tal, desencadeia a destruição de si próprio.
Quanto à barata, apesar da morte de Berenice, mantém-se viva e deixa o defunto para seguir por outros lugares. Se tomarmos o inseto como um símbolo do sofrimento humano, entenderemos que ele não pode ser destruído, do mesmo modo que a destruição da tela de Munch não impediria que se repetisse a angústia dos seres humanos.
Esses breves apontamentos, obviamente, não pretendem fechar um sentido sobre nada, mas apenas abrir caminhos para uma possível leitura. A impressão que tenho é de que todos os contos conversam entre si no que eles têm de angustiante, de desesperador, de “grito” e, por outro lado, no que eles têm de exaltação à vida e ao amor, como no caso do conto “Os lencinhos”, em que o protagonista se apaixona por uma vendedora de lencinhos.
Ademais, parte dos contos de Sérgio Sant’Anna conversam com outras artes, tais como a pintura, a escultura, a música e o teatro, o que possibilita belas discussões sobre arte. Dito isso, espero ter apresentado um breve olhar sobre um livro que me encantou em vários aspectos, sendo impossível destacá-los todos aqui. Mas o certo é que, tendo sido seduzida pelo pouco que li na livraria, não pude conter o impulso de adquirir o livro, que por sorte e acaso, escolheu a mim como uma de suas leitoras.

Sérgio Sant'Anna (1941- )
Entrevista sobre o livro:


sexta-feira, 10 de julho de 2015

A consciência de Zeno (1923)



SVEVO, Italo. A consciência de Zeno. Tradução de Ivo Barroso. Rio de Janeiro: O Globo, 2003.

A consciência de Zeno, romance do escritor italiano Italo Svevo, trata-se de um monólogo comovente da trajetória de vida de Zeno, um burguês que vive às custas da herança que o pai lhe deixou. Apenas o prefácio do livro é escrito por seu médico, Doutor S., que por vingança publica a autobiografia do paciente, na esperança de que este se aborreça e retorne ao tratamento. Foi o próprio médico quem o incentivou a escrever, pois, segundo sua concepção, sendo Zeno já velho, o passado deste poderia reflorir por meio da escrita autobiográfica e possibilitar o início do tratamento. Embora tenha abandonado esse médico, durante anos Zeno esteve em busca de um doutor que o quisesse tratar. Sentia-se doente, entre outras coisas, porque não conseguia livrar-se do vício de fumar. 
Segue-se ao prefácio o "Preâmbulo", no qual o narrador tenta rever imagens do seu passado. Entretanto, a primeira imagem que surge para ele, parece dissociada da sua história regressa: "uma locomotiva que resfolega pela encosta acima a arrastar inúmeros vagões" (SVEVO, 2003, p. 7-8). De início, essa imagem também é opaca para o leitor, pois o sentido dela só se fará legível no capítulo denominado "A morte de meu pai", quando então é possível compreender que a locomotiva que arrasta uma série de vagões simboliza a respiração ofegante do pai enquanto moribundo:

É exatamente assim que fazem as locomotivas que arrastam pesos enormes: emitem baforadas regulares, que depois aceleram para terminar numa parada, também esta perigosa, porque quem a ouve teme que a máquina e seus vagões se precipitem morro abaixo. (SVEVO, 2003, p. 44). 

Do mesmo modo, era a respiração do pai, que ora acelerava, ora parava, indicando o prelúdio do fim.
Em decorrência da espera da morte do pai, Zeno sente tristeza por si mesmo, que não terá mais por que e nem para quem preservar seus esforços de aperfeiçoamento. Até que decide casar-se por conveniência e por tédio, visto que desde então sua vida tem tido poucas variações. A partir daí, o romance gira em torno do casamento e das relações que conseguira por meio deste: a relação com o sogro, com as cunhadas e mesmo a relação profissional, que surge por conta do convívio com o marido de uma das irmãs de sua esposa. 
Em síntese, a história passa por diversos temas da vida: o vício, a morte, o casamento, a traição, a sociedade comercial e a tentativa de buscar um tratamento psicanalítico. Zeno deixa de ir aos encontros com o Doutor S. porque constata a ineficiência da psicanálise face a um mundo de artefatos alheios ao corpo do homem; inventados por este mas responsáveis pela moléstia que cerca a Terra. Segundo o narrador, a astúcia do homem cresce na proporção de sua fraqueza (SVEVO, 2003).
O que se pode concluir dessa narrativa é que é quase impossível não se identificar em algum momento com as angústicas e dúvidas do personagem. Não à toa, ao ler esse romance, Sontag escreveu em seu diário que se sentia profundamente impressionada e comovida, provavelmente, porque Svevo falou de enfermidades e fragilidades que atingem e constituem todo ser humano.


Italo Svevo (1861-1928)


quinta-feira, 9 de julho de 2015

Niketche: uma história de poligamia (2002)


CHIZIANE, Paulina. Niketche: uma história de poligamia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Niketche: uma história de poligamia, da autora moçambicana Paulina Chiziane, é um romance que discute a tradição africana e como esta influi na vida das mulheres, que historicamente têm sido vítimas de uma sociedade misógina. O romance é narrado por Rami, uma voz feminina que nos conta a sua história e a de outras mulheres. 
A protagonista da história descobre que é traída pelo marido. Inicialmente, sente raiva de suas rivais, mas esse sentimento é breve, pois ao constatar que, na verdade, todas as mulheres são vítimas dos homens, une-se às amantes do Tony. Com isso, conseguem fazê-lo assumir que é um polígamo e, como tal, deve retomar a tradição e oferecer um dote a todas as suas mulheres, bem como o status de mulher casada.
O casamento tem validade para a tradição, no entanto, não perante as leis. Isso porque o país foi colonizado pelos europeus, que privilegiam a monogamia em detrimento da poligamia. Tanto um quanto outro, porém, desfavorece a mulher, pois o primeiro só existe na teoria, e o segundo só dá poder ao patriarca. Nas palavras da narradora, Rami: “Poligamia é ser mulher e sofrer até reproduzir o ciclo da violência (CHIZIANE, 2004, p. 91).”
Na dança do amor, chamada de “Niketche”, as mulheres são excluídas. O amor é perpassado por uma relação de poder que submete as mulheres à categoria de seres inferiores e, por isso, elas devem ser censuradas, silenciadas. Esse processo de silenciamento é sustentado pelo discurso religioso, pelo discurso da tradição e pelo discurso dos homens, que legitimam a produção de uma única verdade sobre a mulher. 
Rami representa a resistência a esse discurso. O espelho, a quem ela tanto procura para se confidenciar e expor dúvidas, simboliza esse outro “eu” da personagem que entra em conflito com as “verdades” históricas produzidas sobre a mulher: “Pensa bem, amiga minha: serão as outras mulheres as culpadas desta situação? Serão os homens inocentes? (CHIZIANE, 2004, p. 33)” Essa reflexão trazida pelo espelho, chamada de “inútil”, é o início de uma rebelião interior que não se conforma com um Deus que existe apenas para favorecer aos homens; talvez, como coloca Rami, porque falte uma deusa que atenda às orações das mulheres, ou, se existe uma deusa, esta foi obrigada a se contentar com a “cozinha celestial”. 
Desse modo, a autora questiona o que é ser mulher, seja numa cultura da tradição, com seus rituais que desvalorizam a mulher ou numa cultura cristã, que também desvaloriza a mulher ao descrevê-la como fruto da costela de Adão, como pecadora e serva de Deus; seja no sul ou no norte. Sob esse discurso, a mulher é vista como um ser fraco e frágil, enquanto o homem simboliza a força e a virilidade. Entretanto, se é a mulher quem aguenta ser traída, quem trabalha em casa sem nada ganhar e quem sofre violência física, psicológica e sexual, resistindo a tudo, como pode ser ela fraca e frágil?
Nesse sentido, Rami nos conta a história de uma mulher do interior da Zambézia, que carrega em si a história de Moçambique, sem deixar de rir e cantar:

 Tem cinco filhos, já crescidos. O primeiro, um mulato esbelto, é dos portugueses que a violaram durante a guerra colonial. O segundo, um preto, elegante e forte como um guerreiro, é fruto de outra violação dos guerrilheiros de libertação da mesma guerra colonial. O terceiro, outro mulato, (...) é dos comandos rodesianos brancos, que arrasaram esta terra para aniquilar as bases dos gerrilheiros do Zimbabwe. O quarto é dos rebeldes que fizeram a guerra civil no interior do país.  (CHIZIANE, 2004, p. 278-279)

A história do país, portanto, é marcada pela exploração da mulher, que durante anos foi falada. O romance de Chiziane não à toa é narrado por uma personagem feminina, pois, além de representar a resistência ao discurso patriarcal, é o espaço de uma voz que cansou de ser censurada e que está disposta a gerar outros sentidos sobre o que é ser mulher e sobre o que é amar. Com isso, por meio de um enredo envolvente, o livro convida o leitor não só a acompanhar a história de Rami, mas a refletir sobre as relações de poder estabelecidas na sociedade moçambicana.


Paulina Chiziane (04/05/1955 - )

A morte de Ivan Ilitch (1886)



TOLSTÓI, Lev. A morte de Ivan Ilitch. Tradução de Boris Schnaiderman. São Paulo: Editora 34, 2009.

Umberto Eco, em seu texto "Sobre algumas funções da literatura", menciona que uma das principais funções da literatura consiste em nos ensinar a lidar com nossas frustrações e em nos educar para a morte. No que diz respeito à morte, a novela de Tolstói - A morte de Ivan Ilitch - vem de imediato à minha memória.
A morte de Ivan Ilitch gira em torno do sofrimento físico e moral de Ivan que, ao se saber vítima de uma doença cuja cura se torna uma expectativa cada vez mais ilusória, reflete sobre o que foi sua existência. Sob a sombra de uma doença que o aproxima da morte, Ivan conclui que não lhe compete mais querer compreender os sintomas do mal que o está fragilizando fisicamente, mas pensar sobre a vida e a morte. 
A princípio, ambas são vistas numa relação de dicotomia: a vida representa a luz e a morte representa a treva. Nesse sentido, isso perturba o protagonista, que não vê sentido no fim que o aguarda. Para Ivan, o silogismo que aprendera na lógica de Kiesewetter não diz respeito a sua vida "Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal (TOLSTÓI, 2009, p. 49)." — mas apenas a Caio, que diferente dele, é um "homem geral", isto é, como outro qualquer. Ivan se sentia distinto dos demais e, portanto, "seria demasiadamente terrível" ser tão mortal quanto Caio. 
Ademais, se a vida é sem sentido a ponto da maturidade caminhar junto com a morte, para a personagem, é ainda mais sem sentido que se morra sofrendo. Ivan se sente inconformado por não haver uma explicação para o que está lhe acontecendo, pois pensa que, já que não se pode resistir, poderia ao menos compreender. 
Preso a essa fatalidade, todos a sua volta se tornam companhias desagradáveis, com exceção de Guerássim, o ajudante de copeiro com quem consegue estabelecer um elo de afetividade. O casamento e o trabalho de Ivan se, publicamente, constituem sua trajetória de homem bem-sucedido, quando analisados se revelam frágeis, porque são sustentados por relações fúteis, interesseiras e hipócritas:

O seu trabalho, o arranjo da sua vida, a sua família, e esses interesses da sociedade e do serviço, tudo isto podia ser outra coisa. Tentou defender tudo isto perante si. E de repente sentiu toda a fraqueza daquilo que defendia. E não havia o que defender (TOLSTÓI, 2009, p. 72).

Apenas Guerássim mantia com o patrão uma relação de sinceridade e de solidariedade, pois, de acordo com seu ponto de vista, o esforço valia, tendo em vista que todos têm sua hora. 
Com a ascendência do sofrimento de Ivan Ilitch, este passa a enxergar mais claramente o mundo que o cerca. Para além disso, no desfecho da novela, ele desconstrói a dicotomia luz/ treva e constata que a morte não existe, de modo que não há mais espaço para o seu antigo medo. A morte estava no que antes ele julgava ser a "luz", e no que julgava como "treva" foi a sua libertação: "A morte acabou — disse a si mesmo. — Não existe mais (TOLSTÓI, 2009, p. 76)." Sem dúvida, essa narrativa foi lida por mim no momento adequado, em que a perda ainda estava muito presente na minha vida e eu buscava, assim como Ivan, um sentido para a morte e para o sofrimento.

Referência bibliográfica:

ECO, Umberto. Sobre algumas funções da literatura. In.__________Sobre a literatura. Rio de Janeiro: Record, 2003, p. 9-21.

    
 Lev Nicolayevich Tolstói (09/09/1828 - 20/11/1910)