quinta-feira, 9 de julho de 2015

A morte de Ivan Ilitch (1886)



TOLSTÓI, Lev. A morte de Ivan Ilitch. Tradução de Boris Schnaiderman. São Paulo: Editora 34, 2009.

Umberto Eco, em seu texto "Sobre algumas funções da literatura", menciona que uma das principais funções da literatura consiste em nos ensinar a lidar com nossas frustrações e em nos educar para a morte. No que diz respeito à morte, a novela de Tolstói - A morte de Ivan Ilitch - vem de imediato à minha memória.
A morte de Ivan Ilitch gira em torno do sofrimento físico e moral de Ivan que, ao se saber vítima de uma doença cuja cura se torna uma expectativa cada vez mais ilusória, reflete sobre o que foi sua existência. Sob a sombra de uma doença que o aproxima da morte, Ivan conclui que não lhe compete mais querer compreender os sintomas do mal que o está fragilizando fisicamente, mas pensar sobre a vida e a morte. 
A princípio, ambas são vistas numa relação de dicotomia: a vida representa a luz e a morte representa a treva. Nesse sentido, isso perturba o protagonista, que não vê sentido no fim que o aguarda. Para Ivan, o silogismo que aprendera na lógica de Kiesewetter não diz respeito a sua vida "Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal (TOLSTÓI, 2009, p. 49)." — mas apenas a Caio, que diferente dele, é um "homem geral", isto é, como outro qualquer. Ivan se sentia distinto dos demais e, portanto, "seria demasiadamente terrível" ser tão mortal quanto Caio. 
Ademais, se a vida é sem sentido a ponto da maturidade caminhar junto com a morte, para a personagem, é ainda mais sem sentido que se morra sofrendo. Ivan se sente inconformado por não haver uma explicação para o que está lhe acontecendo, pois pensa que, já que não se pode resistir, poderia ao menos compreender. 
Preso a essa fatalidade, todos a sua volta se tornam companhias desagradáveis, com exceção de Guerássim, o ajudante de copeiro com quem consegue estabelecer um elo de afetividade. O casamento e o trabalho de Ivan se, publicamente, constituem sua trajetória de homem bem-sucedido, quando analisados se revelam frágeis, porque são sustentados por relações fúteis, interesseiras e hipócritas:

O seu trabalho, o arranjo da sua vida, a sua família, e esses interesses da sociedade e do serviço, tudo isto podia ser outra coisa. Tentou defender tudo isto perante si. E de repente sentiu toda a fraqueza daquilo que defendia. E não havia o que defender (TOLSTÓI, 2009, p. 72).

Apenas Guerássim mantia com o patrão uma relação de sinceridade e de solidariedade, pois, de acordo com seu ponto de vista, o esforço valia, tendo em vista que todos têm sua hora. 
Com a ascendência do sofrimento de Ivan Ilitch, este passa a enxergar mais claramente o mundo que o cerca. Para além disso, no desfecho da novela, ele desconstrói a dicotomia luz/ treva e constata que a morte não existe, de modo que não há mais espaço para o seu antigo medo. A morte estava no que antes ele julgava ser a "luz", e no que julgava como "treva" foi a sua libertação: "A morte acabou — disse a si mesmo. — Não existe mais (TOLSTÓI, 2009, p. 76)." Sem dúvida, essa narrativa foi lida por mim no momento adequado, em que a perda ainda estava muito presente na minha vida e eu buscava, assim como Ivan, um sentido para a morte e para o sofrimento.

Referência bibliográfica:

ECO, Umberto. Sobre algumas funções da literatura. In.__________Sobre a literatura. Rio de Janeiro: Record, 2003, p. 9-21.

    
 Lev Nicolayevich Tolstói (09/09/1828 - 20/11/1910)

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