quinta-feira, 9 de julho de 2015

Niketche: uma história de poligamia (2002)


CHIZIANE, Paulina. Niketche: uma história de poligamia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Niketche: uma história de poligamia, da autora moçambicana Paulina Chiziane, é um romance que discute a tradição africana e como esta influi na vida das mulheres, que historicamente têm sido vítimas de uma sociedade misógina. O romance é narrado por Rami, uma voz feminina que nos conta a sua história e a de outras mulheres. 
A protagonista da história descobre que é traída pelo marido. Inicialmente, sente raiva de suas rivais, mas esse sentimento é breve, pois ao constatar que, na verdade, todas as mulheres são vítimas dos homens, une-se às amantes do Tony. Com isso, conseguem fazê-lo assumir que é um polígamo e, como tal, deve retomar a tradição e oferecer um dote a todas as suas mulheres, bem como o status de mulher casada.
O casamento tem validade para a tradição, no entanto, não perante as leis. Isso porque o país foi colonizado pelos europeus, que privilegiam a monogamia em detrimento da poligamia. Tanto um quanto outro, porém, desfavorece a mulher, pois o primeiro só existe na teoria, e o segundo só dá poder ao patriarca. Nas palavras da narradora, Rami: “Poligamia é ser mulher e sofrer até reproduzir o ciclo da violência (CHIZIANE, 2004, p. 91).”
Na dança do amor, chamada de “Niketche”, as mulheres são excluídas. O amor é perpassado por uma relação de poder que submete as mulheres à categoria de seres inferiores e, por isso, elas devem ser censuradas, silenciadas. Esse processo de silenciamento é sustentado pelo discurso religioso, pelo discurso da tradição e pelo discurso dos homens, que legitimam a produção de uma única verdade sobre a mulher. 
Rami representa a resistência a esse discurso. O espelho, a quem ela tanto procura para se confidenciar e expor dúvidas, simboliza esse outro “eu” da personagem que entra em conflito com as “verdades” históricas produzidas sobre a mulher: “Pensa bem, amiga minha: serão as outras mulheres as culpadas desta situação? Serão os homens inocentes? (CHIZIANE, 2004, p. 33)” Essa reflexão trazida pelo espelho, chamada de “inútil”, é o início de uma rebelião interior que não se conforma com um Deus que existe apenas para favorecer aos homens; talvez, como coloca Rami, porque falte uma deusa que atenda às orações das mulheres, ou, se existe uma deusa, esta foi obrigada a se contentar com a “cozinha celestial”. 
Desse modo, a autora questiona o que é ser mulher, seja numa cultura da tradição, com seus rituais que desvalorizam a mulher ou numa cultura cristã, que também desvaloriza a mulher ao descrevê-la como fruto da costela de Adão, como pecadora e serva de Deus; seja no sul ou no norte. Sob esse discurso, a mulher é vista como um ser fraco e frágil, enquanto o homem simboliza a força e a virilidade. Entretanto, se é a mulher quem aguenta ser traída, quem trabalha em casa sem nada ganhar e quem sofre violência física, psicológica e sexual, resistindo a tudo, como pode ser ela fraca e frágil?
Nesse sentido, Rami nos conta a história de uma mulher do interior da Zambézia, que carrega em si a história de Moçambique, sem deixar de rir e cantar:

 Tem cinco filhos, já crescidos. O primeiro, um mulato esbelto, é dos portugueses que a violaram durante a guerra colonial. O segundo, um preto, elegante e forte como um guerreiro, é fruto de outra violação dos guerrilheiros de libertação da mesma guerra colonial. O terceiro, outro mulato, (...) é dos comandos rodesianos brancos, que arrasaram esta terra para aniquilar as bases dos gerrilheiros do Zimbabwe. O quarto é dos rebeldes que fizeram a guerra civil no interior do país.  (CHIZIANE, 2004, p. 278-279)

A história do país, portanto, é marcada pela exploração da mulher, que durante anos foi falada. O romance de Chiziane não à toa é narrado por uma personagem feminina, pois, além de representar a resistência ao discurso patriarcal, é o espaço de uma voz que cansou de ser censurada e que está disposta a gerar outros sentidos sobre o que é ser mulher e sobre o que é amar. Com isso, por meio de um enredo envolvente, o livro convida o leitor não só a acompanhar a história de Rami, mas a refletir sobre as relações de poder estabelecidas na sociedade moçambicana.


Paulina Chiziane (04/05/1955 - )

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