sexta-feira, 10 de julho de 2015

A consciência de Zeno (1923)



SVEVO, Italo. A consciência de Zeno. Tradução de Ivo Barroso. Rio de Janeiro: O Globo, 2003.

A consciência de Zeno, romance do escritor italiano Italo Svevo, trata-se de um monólogo comovente da trajetória de vida de Zeno, um burguês que vive às custas da herança que o pai lhe deixou. Apenas o prefácio do livro é escrito por seu médico, Doutor S., que por vingança publica a autobiografia do paciente, na esperança de que este se aborreça e retorne ao tratamento. Foi o próprio médico quem o incentivou a escrever, pois, segundo sua concepção, sendo Zeno já velho, o passado deste poderia reflorir por meio da escrita autobiográfica e possibilitar o início do tratamento. Embora tenha abandonado esse médico, durante anos Zeno esteve em busca de um doutor que o quisesse tratar. Sentia-se doente, entre outras coisas, porque não conseguia livrar-se do vício de fumar. 
Segue-se ao prefácio o "Preâmbulo", no qual o narrador tenta rever imagens do seu passado. Entretanto, a primeira imagem que surge para ele, parece dissociada da sua história regressa: "uma locomotiva que resfolega pela encosta acima a arrastar inúmeros vagões" (SVEVO, 2003, p. 7-8). De início, essa imagem também é opaca para o leitor, pois o sentido dela só se fará legível no capítulo denominado "A morte de meu pai", quando então é possível compreender que a locomotiva que arrasta uma série de vagões simboliza a respiração ofegante do pai enquanto moribundo:

É exatamente assim que fazem as locomotivas que arrastam pesos enormes: emitem baforadas regulares, que depois aceleram para terminar numa parada, também esta perigosa, porque quem a ouve teme que a máquina e seus vagões se precipitem morro abaixo. (SVEVO, 2003, p. 44). 

Do mesmo modo, era a respiração do pai, que ora acelerava, ora parava, indicando o prelúdio do fim.
Em decorrência da espera da morte do pai, Zeno sente tristeza por si mesmo, que não terá mais por que e nem para quem preservar seus esforços de aperfeiçoamento. Até que decide casar-se por conveniência e por tédio, visto que desde então sua vida tem tido poucas variações. A partir daí, o romance gira em torno do casamento e das relações que conseguira por meio deste: a relação com o sogro, com as cunhadas e mesmo a relação profissional, que surge por conta do convívio com o marido de uma das irmãs de sua esposa. 
Em síntese, a história passa por diversos temas da vida: o vício, a morte, o casamento, a traição, a sociedade comercial e a tentativa de buscar um tratamento psicanalítico. Zeno deixa de ir aos encontros com o Doutor S. porque constata a ineficiência da psicanálise face a um mundo de artefatos alheios ao corpo do homem; inventados por este mas responsáveis pela moléstia que cerca a Terra. Segundo o narrador, a astúcia do homem cresce na proporção de sua fraqueza (SVEVO, 2003).
O que se pode concluir dessa narrativa é que é quase impossível não se identificar em algum momento com as angústicas e dúvidas do personagem. Não à toa, ao ler esse romance, Sontag escreveu em seu diário que se sentia profundamente impressionada e comovida, provavelmente, porque Svevo falou de enfermidades e fragilidades que atingem e constituem todo ser humano.


Italo Svevo (1861-1928)


Nenhum comentário:

Postar um comentário