domingo, 30 de agosto de 2015

O Castelo (1922)


KAFKA, Franz. O castelo. Tradução de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

Concluí hoje a leitura d’O Castelo, do tcheco Franz Kafka. Não é a minha primeira experiência com uma obra do autor, que aliás, muito me encanta e agrada, porque Kafka sabe nos transportar para um mundo de horror e desespero — onde as coisas acontecem sem que tenham compromisso com o entendimento normal das pessoas — sem que isso nos enlouqueça, mas antes, salve-nos de nossa própria cegueira diante das deformações humanas.
O protagonista do romance, Joseph K., chega a uma aldeia coberta de neve e procura abrigo no Albergue da Ponte, onde é recebido de modo pouco receptivo, por ser um estrangeiro. Ele explica, no intuito de ser aceito com mais simpatia, que está ali porque foi convocado pelo castelo a prestar seus serviços de agrimensor (profissão que, na realidade, nunca será exercida durante toda a história).
 Mesmo sem ter o que fazer como agrimensor, K. recebe do castelo dois ajudantes (Jeremias e Arthur), que por sinal, nada entendem de agrimensura. Sem entender o ocorrido, K. procura entrar em contato com Klamm, funcionário de grande importância do castelo, que determina a ocupação de K. na aldeia; no entanto, essa procura é inútil, pois Klamm nunca se deixa ser visto.
Aparentemente, apenas por meio de um mensageiro, Barnabás, K. poderá tentar entrar em contato com Klamm. Mas isso também é incerto, pois Olga, irmã de Barnabás, em uma conversa que manteve com K., disse-lhe que, mesmo o irmão, supõe que recebe as mensagens de um homem que, embora se identifique como Klamm, trata-se de algum outro funcionário do castelo.
Além do Albergue da Ponte, a Hospedaria dos Senhores também é um espaço bastante relevante na história, pois, como o próprio nome diz, é o lugar dos senhores, isto é, dos personagens do castelo, que se hospedam nessa casa quando vêm à aldeia. É lá que, supostamente — por concessão de Frieda, amante de Klamm e balconista da Hospedaria dos Senhores — K. vê Klamm por uma fresta da porta.
Frieda e K. assumem um compromisso amoroso, o que a leva a deixar o amante e o emprego de balconista. A princípio, tentam se estabelecer no Albergue da Ponte, mas a dona do albergue detesta K. e não pode suportar por muito tempo a presença dele. Por outro lado, ir para a casa de Barnabás, onde K. chega a afirmar que teria hospedagem, é inconcebível para Frieda que, assim como os outros habitantes da aldeia, julgam que a família do mensageiro é amaldiçoada e, portanto, deve ser discriminada.
Torna-se viável, então, a oferta do prefeito da aldeia, que lhe oferece o serviço de servente de escola. Por insistência de Frieda, K. aceita a oferta, de modo que o casal, mais os ajudantes, mudam-se para a escola. Tal contexto, contudo, é passageiro, porque K. não suporta mais os ajudantes e passa a maltratá-los, o que faz com que Frieda se apiede deles; ademais, certo dia, K. passa metade da noite na casa de Barnabás, conversando com Olga, o que provoca a ira de Frieda, que se sente traída e decide deixar aquele que seria seu marido.
Frieda também era um meio possível de estabelecer um contato entre K. e Klamm, mas, acima de tudo, ele a amava. De qualquer modo, quase todas as ações de K. na aldeia são determinadas pela sua ânsia de entrar em contato com Klamm, o que se revela um fracasso, porque ele está enredado numa rede burocrática que transforma os seres humanos em criaturas alienadas, as quais se posicionam de modo a manter o funcionamento da estrutura de um poder totalitário. K. até tenta questionar esse processo e se rebelar contra ele, mas face a um castelo e a homens do poder que se mostram inacessíveis, essa tentativa não o leva a lugar nenhum, ou melhor, leva-o ao desespero de se ver vítima do medo e da angústia.
De acordo com o posfácio de Modesto Carone, tradutor da obra kafkiana, há várias leituras possíveis para O Castelo. Entre elas, a que mais se destaca diz respeito à intervenção crítica de Adorno: 

se as narrativas de Kafka soam ‘metafísicas’, a culpa não é dele, mas da História a que ele está submetido. Num lance mais concreto, K. é (...) uma vítima da corrupção e do caráter associal de uma dominação criminosa e totalitária que prenuncia o fascismo (CARONE, 2008, p. 360).

Lido hoje, em tempos que o totalitarismo é um fantasma ainda disposto a nos assombrar, seja por intermédio do fundamentalismo religioso, ou de discursos reacionários, ou mesmo por meio da memória do passado, O Castelo, ainda que não prenuncie mais nada, é tocante no que se refere ao desespero do homem, quando muitas vezes este ainda se vê marcado por algum tipo de opressão ou de inadequação. É, portanto, mais do que tentador repetir o clichê de que, ao falar de Kafka, estamos nos referindo a um dos maiores gênios da literatura do século XX.

Franz Kafka (1883-1924)

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