sexta-feira, 21 de agosto de 2015

O homem-mulher (2014)

SANT'ANNA, Sérgio. O homem-mulher. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

Certa vez, ouvi de uma professora que os livros é que nos escolhem. Acredito que isso não possa ser dito em relação a todos os livros que lemos, mas alguns, de fato, parecem nos escolher. Entre eles, destaco neste texto o livro de contos “O homem-mulher”, do escritor carioca Sérgio Sant’Anna. Fui vista pelo livro numa tarde em que nem pretendia comprar nada, e se estava dentro de uma livraria, era apenas para fazer hora enquanto aguardava por uma amiga que estava atrasada.
Lá mesmo comecei a leitura do livro, ainda sem a intenção de comprá-lo, mas já aberta à possibilidade de ser seduzida. O conto de abertura do livro corresponde a primeira parte da narrativa "O homem-mulher", que conta a história de Adamastor Magalhães, ou Fred Wilson, ou Zezé. Este personagem denomina-se homem-mulher porque desde a adolescência sente prazer de se vestir de mulher, sem que isso esteja associado a uma homossexualidade. Ao contrário, o personagem é heterossexual. Vestir-se de mulher é apenas "um modo de ser", uma maneira de expor a feminilidade que é parte de sua identidade.
Adamastor Magalhães, ou Fred Wilson, ou Zezé é apaixonado por teatro. A primeira peça que encenou - As criadas, do escritor francês Jean Genet - foi em sua cidade natal, Belém do Pará, e permitiu ao personagem, por conta do papel feminino que deveria desempenhar, vestir-se o tempo todo de mulher. 
Esse foi o início da carreira teatral do personagem que, na segunda parte do conto, mostrada apenas no final do livro, decide mudar-se para o Rio de Janeiro e alugar um velho apartamento de subsolo na Lapa - bairro considerado tolerante para pessoas que, assim como ele, não se enquadram nos padrões de comportamento ditados pela sociedade - a fim de se estabelecer como ator, diretor e autor.
A peça escrita por ele, "Os desesperados", é uma mistura de ficção e realidade porque revela a própria história de Fred Wilson e dos outros personagens que o acompanham. É como se o personagem da peça atuasse para além dos palcos, isto é, Adamastor Magalhães não consegue se desvencilhar de seu personagem homem-mulher.
Outro conto que li ainda na livraria, trata-se de um diálogo com a obra do pintor norueguês Edward Munch: Madonna. O conto se refere a dois quadros roubados pelo personagem que narra a história: “O grito” e, claro, a “Madonna”. Quadros esses que, por serem muito famosos, não poderiam ser vendidos ou exibidos, de modo que ficaram restritos ao olhar do ladrão. Este diz assim sobre o primeiro quadro: 

O grito é o inferno que uma mente humana pode abrigar, o retrato do desespero sem fim, e, se o destruísse, gostaria que fosse com uma faca pontiaguda retalhando a tela, como se assim pudesse destruir toda dor e todo sofrimento. Mas quantos bilhões são os seres humanos e quantas e quantas vezes tal angústia não poderá se repetir? (SANT'ANNA, 2014, p. 55).


Conviver com "O grito" seria insuportável se não fosse a imagem da Virgem, da "Madonna", que "aplaca toda angústia" e "apaga todos os amores vividos, então tornados uma reles imitação, para ser para sempre o primeiro e único amor" (SANT'ANNA, 2014, p. 56). A Madonna, portanto, é quem ameniza o desespero humano e faz com que o sofrimento seja suportável.
À Berenice Azambuja, personagem de outro conto (As antenas da raça), parece entretanto só existir a imagem do desespero. Casada com um embaixador que sofre de mal de Alzheimer, ela decide oferecer uma festa às figuras de destaque do mundo diplomático, da cultura e da política. Na hora da refeição, é servido aos convidados uma sopa de ervas finas do Turzequistão. Mas, para a surpresa dela e do comendador que está ao seu lado, há uma barata na sopa da embaixatriz.
Por ser considerada uma exímia anfitriã, Berenice nega ao comendador que tenha uma barata na sopa e a come: “Com uma colherada da sopa deliciosa, sorveu decididamente a barata, para não ter de mastigá-la” (SANT’ANNA, 2014, p. 80). Esse ato de ingerir direto a barata, sem mastigá-la, manteve o inseto vivo dentro de si, para o pavor da embaixatriz, que não querendo também vomitar o bicho, quando se viu só, gritou e se jogou da janela, suicidando-se.
De acordo com a minha leitura, que ainda se revela ínfima neste texto, para Berenice, manter as aparências tem uma importância tamanha que a leva ao grito, ao desespero, ao desejo de destruir-se. Mais uma vez, assim como no quadro de Munch, o grito aparece como o retrato do desespero sem fim, e como tal, desencadeia a destruição de si próprio.
Quanto à barata, apesar da morte de Berenice, mantém-se viva e deixa o defunto para seguir por outros lugares. Se tomarmos o inseto como um símbolo do sofrimento humano, entenderemos que ele não pode ser destruído, do mesmo modo que a destruição da tela de Munch não impediria que se repetisse a angústia dos seres humanos.
Esses breves apontamentos, obviamente, não pretendem fechar um sentido sobre nada, mas apenas abrir caminhos para uma possível leitura. A impressão que tenho é de que todos os contos conversam entre si no que eles têm de angustiante, de desesperador, de “grito” e, por outro lado, no que eles têm de exaltação à vida e ao amor, como no caso do conto “Os lencinhos”, em que o protagonista se apaixona por uma vendedora de lencinhos.
Ademais, parte dos contos de Sérgio Sant’Anna conversam com outras artes, tais como a pintura, a escultura, a música e o teatro, o que possibilita belas discussões sobre arte. Dito isso, espero ter apresentado um breve olhar sobre um livro que me encantou em vários aspectos, sendo impossível destacá-los todos aqui. Mas o certo é que, tendo sido seduzida pelo pouco que li na livraria, não pude conter o impulso de adquirir o livro, que por sorte e acaso, escolheu a mim como uma de suas leitoras.

Sérgio Sant'Anna (1941- )
Entrevista sobre o livro:


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