quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Solidão Continental (2012)



NOOL, João Gilberto. Solidão Continental. Rio de Janeiro: Record, 2012.

Neste texto, pretendo falar sobre as impressões obtidas a partir da leitura do romance Solidão Continental, de João Gilberto Noll. Aliás, essa é a minha primeira experiência com um texto do autor.
Segundo ouvi do próprio Noll, em entrevistas que podem ser encontradas facilmente na internet, a solidão é um tema recorrente em sua obra. Em Solidão Continental essa solidão assume proporções de caráter amplo, pois a jornada do protagonista por cidades diversas é sempre solitária.
Outra importante característica do personagem, que ganha a vida como professor de português para estrangeiros, refere-se aos desejos sexuais manifestados por ele que, de acordo com a minha percepção de leitura, ampliam o sentimento de solidão do protagonista que narra a história. Na maioria das vezes, ele sequer chega a conseguir concretizar os seus desejos, e mesmo quando concretiza, como ocorreu na juventude, quando se relacionou com Bill, trata-se de uma relação breve.
O passado, tempo o qual ele busca retomar quando chega a Chicago — ao procurar o hotel onde anos atrás esteve hospedado e manteve um caso amoroso com o americano Bill — estabelece o conflito com o presente, marcado pelo envelhecimento que, se por um lado, não altera sua obsessão pelo sexo e pelo amor, por outro, contribui para a deterioração do corpo.
Abaixo, destaco o seguinte fragmento do texto, para exemplificar esse conflito do personagem no que se refere ao seu medo de fracassar sexualmente, por conta da juventude que passara:  

 Sempre me perguntava se as pessoas percebiam em mim um obcecado pelas coisas do sexo ou do amor ou das duas coisas juntas. Nessa altura um elevado libertino sem ação, mas sempre a postos para cair no conto de qualquer libido espúria. Já um velho animal que não poucas vezes só de roçar o pensamento na pele imaginária já pegava no sono, distendido e lasso, com medo de fracassar. (NOOL, 2012, p. 12-13, grifo nosso)

Apesar do medo de fracassar, o personagem está constantemente em busca de um outro que preencha a solidão que o assola. Acompanhamos, então, o encontro dele com figuras que vão surgindo mas que desaparecem pouco tempo depois. Entre elas, a que ocupa o maior número de páginas é a figura de Frederico, jovem pelo qual o protagonista se apaixona e segue com certa obsessão. Este, em dado momento da história desfalece e é carregado pelo outro tal como Jesus no trajeto da Via Crúcis.    
Essa busca do personagem por um outro, por um amor, de Chicago a Porto Alegre, é o enredo base do romance, que é contado de maneira a expor mais a subjetividade do personagem do que uma história próxima de uma estética naturalista. De acordo com Noll, ele gosta de compor cenas difusas e imprecisas, mesmo porque, a nitidez do romance naturalista não condiz com a vida.
Além disso, o autor considera que a literatura tem a função de enunciar aquilo que é silenciado pela cultura dominante. Desse modo, o personagem expõe sem pudores seus desejos libidinosos e menciona excrementos produzidos pelo corpo humano, por meio da mediação de uma linguagem que se encontra no limite entre a prosa e a poesia.
Ao ler o romance, por causa dessas características, tive como primeira impressão uma sensação de estranhamento, mesmo estando acostumada a ler autores que destoam de uma estética naturalista. Mas não demorou muito para que eu usufruísse com prazer da obra de João Gilberto Noll, que nos revela um personagem cuja trajetória é narrada de acordo com o seu fluxo de consciência, expondo toda a crueza de sua subjetividade.    



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