quinta-feira, 26 de novembro de 2015

O amante do vulcão (1992)


SONTAG, Susan. O amante do vulcão. Tradução de Isa Mara Lando. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

O romance histórico “O amante do vulcão”, da autora norte-americana Susan Sontag, é contextualizado no século XVIII, de modo que a autora discorre sobre o período da revolução francesa (1789-1799) e sobre o impacto dessa revolução em Nápoles, que na época era governada pelo rei das Duas Sicílias Fernando I e por sua consorte Maria Carolina de Habsburgo-Lorena (irmã de Maria Antonieta).
Com a queda da monarquia francesa e com a morte dos reis da França na guilhotina, em 1793, o rei e a rainha de Nápoles decretaram que todos aqueles que simpatizassem com os jacobinos deveriam ser punidos. Desse modo, muitos aristocratas da época morreram. No romance, Sontag (2006) descreve a morte de um duque que sequer era republicano, mas, por ter diversos livros e obras de artes, foi acusado como tal e assassinado pelo povo, que apoiava a monarquia.

Apesar do grande número de convertidos que as ideias esclarecidas haviam feito na classe alta, um número ainda maior de privilegiados era constituído de colecionadores, e os colecionadores têm grande dificuldade de aceitar as consequências de um levante revolucionário. Suas posses são um investimento no velho regime, por mais volumes de Voltaire que tenham lido. Uma revolução não é um bom momento para os colecionadores. (SONTAG, 2006, p. 272).

Nesse contexto, três personagens se destacam: Sir William Hamilton, embaixador britânico no Reino das Duas Sicílias, sua segunda mulher, Emma, e lord Nelson, herói marítimo da Inglaterra, que apoiou os reis de Nápoles na repressão àqueles que simpatizavam com os jacobinos.
Sir William Hamilton – o Cavalieri – é colecionador de obras de arte e de antiguidades, além de vulcanólogo. O vulcão da cidade italiana – chamado Vesúvio – serve de metáfora aos acontecimentos ocorridos, pois, ao se igualar à natureza, o homem se sente no direito de realizar qualquer atrocidade:

Cada um projeta no vulcão a quantidade de raiva, de cumplicidade com a destruição, de ansiedade quanto à capacidade de sentir que já existe na sua cabeça. O marquês de Sade tirou de sua estadia de cinco meses em Nápoles, perto do Vesúvio então adormecido, as fantasias de maldade que qualquer coisa capaz de violência lhe inspirava. (SONTAG, 2006, p. 88).

Vamos adotar um enfoque positivo. A montanha é um emblema de todas as formas de morte por atacado: o dilúvio, a grande conflagração (‘sterminator Vesevo’, como diria o grande poeta), mas também de sobrevivência, da persistência humana. Neste caso, a natureza soltando sua fúria cega também faz a cultura, faz artefatos, ao assassinar, ao petrificar a história. Em desastres assim, há muito para se apreciar. (SONTAG, 2006, p. 118).

É importante ressaltar que a narrativa de Susan Sontag, para além de revisitar um determinado período histórico, discorre sobre a história das mulheres. Ao nos contar a trajetória de Emma, esposa do Cavalieri e amante do herói, a autora enfatiza o condicionamento imposto às mulheres para que estas se adequem a estereótipos de fragilidade e de sensibilidade:

Parece ser a mais cruel apenas porque é a mais emocional – o que se espera que as mulheres sejam. E as mulheres emocionais que não detêm o poder, poder verdadeiro, em geral terminam sendo vítimas. (SONTAG, 2006, p. 312).

Outra personagem importante citada no romance é  Eleonora de Fonseca Pimentel, intelectual da época que fundou o jornal oficial da República Napolitana e que acabou condenada à forca. Por ser um romance polifônico, Eleonora Pimentel é uma das vozes da narrativa, ou melhor, é a voz que encerra a narrativa e que, por ser mulher e republicana, expõe uma visão crítica sobre as personagens daquele período histórico.
Sendo assim, fica claro que William Hamilton não passava de “um diletante da classe alta desfrutando das muitas oportunidades disponíveis num país pobre, corrupto e interessante para surrupiar obras de arte!” (SONTAG, 2006, p. 421). O Cavalieri, mesmo quando se sentia incomodado com uma determinação monárquica, não deixava de lado a passividade. Lembremos que os que não são nem maus nem inocentes também cometem crimes atrozes.  
Quanto à esposa do Cavalieri – Emma – como bem pontua Eleonora Pimentel, era uma entusiasta capaz de se aliar a qualquer causa defendida pelo homem que amasse. “Esta é a nulidade de mulheres como ela”, diz a republicana, porque Emma sacrificou sua mente à ideia trivial que se tinha do seu sexo, e claro, acabou como vítima, tendo em vista que era uma mulher que não detinha nenhum poder. Infelizmente, Emma simboliza a história de diversas outras mulheres, que no ímpeto de querer agradar aos homens, tornam-se vítimas de uma sociedade misógina e patriarcal.
Portanto, “O amante do vulcão” é uma crítica aos sujeitos que, julgando-se civilizados, importam-se apenas com sua própria glória ou bem-estar. Na verdade, não passam de seres desprezíveis, que são considerados vencedores porque são transformados em força da natureza e, como tal, são irredutíveis, por isso, semelhantes ao vulcão. De acordo com Sontag (2006), para irmos além da natureza, é necessário cultivarmos a compaixão.

A compaixão, que não é o perdão, significa não fazer aquilo que a natureza, e o interesse próprio, nos diz que temos direito de fazer. E talvez nós de fato tenhamos esse direito, e esse poder. Mesmo assim, como é sublime não fazer. Nada é mais admirável que a compaixão. (SONTAG, 2006, p. 319).


Susan Sontag (1933 - 2004)