quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O encontro marcado (1956)


SABINO, Fernando. O encontro marcado. Rio de Janeiro: Record, 1998.

            Ler o “O encontro marcado”, sobretudo quando se é jovem, como no meu caso, é ver transcrito em palavras o que se sente na passagem da adolescência para a vida adulta. De acordo com Tristão de Athayde, essa obra representa “o drama de uma geração, de uma idade, de uma época social”; eu diria, porém, que “O encontro marcado” nos põe em contato com o drama de todos os jovens, que não raro se sentem angustiados sobre o que fazer da vida.
Durante a experiência de leitura da narrativa, acompanhamos o crescimento de Eduardo Marciano, mineiro de Belo Horizonte que sonha em ser escritor. Eduardo e seus amigos, Mauro e Hugo — familiarizados com os acontecimentos do mundo literário — criticavam o parnasianismo, considerado superado. O delegado, por sua vez, contrapunha-se ao pensamento dos meninos:

— Superado o parnasianismo? Ora, vamos deixar de bobagem, meninos! Depois de Bilac o que foi que houve no Brasil, hein? Me digam! Pois fiquem sabendo que Alberto de Oliveira... (SABINO, 1998, p. 59)

Desde já notamos a tensão entre o novo e o velho, que se mantém no romance. No decorrer da história, outrora rapazes, Eduardo e seus amigos é que envelhecem e têm que lidar com o aparecimento de uma nova estética literária: o concretismo.
Mais do que isso, eles têm que lidar com a verdadeira angústia, que nada tem a ver com aquela que eles buscavam enquanto jovens, e que se fazia presente apenas por encenação. O terror, de que tanto fala Kafka, vai além das letras e surge, quando menos se espera, no cotidiano.

Apoiou-se à parede — seu corpo tremia, o coração disparava e todo ele parecia tocar o mais fundo da angústia. Sim, ‘aquilo’ era angústia. Num grande esforço tentou ainda ordenar os pensamentos, entender as coisas ao redor — não entendia mais nada. (SABINO, 1998, p. 177)

Quando rapaz, Eduardo conhece um escritor fracassado, chamado Toledo. Este lhe apresenta diversos cânones literários e lhe dá várias dicas sobre como seguir pelo caminho das letras. De todas as falas desse personagem, esta é a que me parece mais significativa, a ponto de querer registrá-la aqui:

— É um bom começo saber isso: não ter medo de nada, nem de morrer. Você tem medo de morrer? Então desista de uma vez, porque morrer não tem importância — Mário de Andrade morreu e está mais vivo do que eu, do que você. Estou repetindo palavras dele! Tenha medo é dos escorregões. Não escorregue, caia de uma vez. Os medíocres apenas escorregam. Os bons quebram a cabeça. Você é dos bons. Pois vá em frente! Pague seu preço e Deus o ajudará. (SABINO, 1998, p. 241)

É bastante relevante o fato de que, durante todo o romance, destacam-se diversos apontamentos sobre o que é ser um bom escritor e romancista. Eduardo, por sua vez, dedica-se a escrever artigos sobre isso, no entanto, não consegue escrever obra alguma.
A vida do personagem é repleta de frustrações, pois, além da incapacidade para criar uma obra de arte, não consegue sustentar seu casamento com Antonieta e tampouco consegue ter um filho com ela, que sofre um aborto espontâneo. Do mesmo modo, perde a oportunidade de ter um filho com outra mulher, Neusa, ao permitir que ela vá a uma clínica clandestina abortar o feto.
Ao retornar a Belo Horizonte e a Juiz de Fora, onde serviu ao exército — passado anos no Rio de Janeiro — Eduardo tem a sensação de estar em um cemitério, pois já não poderia encontrar nesses lugares o que havia vivido. Ao encontro que havia marcado ainda na infância com seus amigos, no ginásio, só ele foi; provavelmente, porque era o único nostálgico, que lamentava o que eles queriam ser, mas nunca foram.
A história de Eduardo Marciano, desse modo, é a trajetória de muitos de nós, que procuram por um sentido para a vida. Não à toa Sabino dizia que escrevia para tentar entender. Talvez seja esse o porquê do romance: uma tentativa de compreender o mundo, Deus e as angústias humanas. Sem dúvida, um belíssimo romance.

Fernando Sabino (1923-2004)

Um comentário:

  1. Parece ser um livro muito bom. Gostei da resenha e do blog!
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