quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Rútilos (1977) - (1993)


HILST, Hilda. Rútilos. São Paulo: Globo, 2003.

“Rútilos” foi organizado por Alcir Pécora e reúne dois livros de Hilda Hilst: “Pequenos discursos, E um grande” (1977) e “Rútilo nada” (1993). Ambos os textos têm em comum personagens que se posicionam de maneira contrária ao pensamento vigente da época.
No primeiro texto, percebo, até mesmo pela data de publicação do livro, que a autora pretende criticar o então regime militar que vigorava no Brasil, o qual ficou marcado pela tirania política. No último conto de “Pequenos discursos, E um grande”, chamado “O grande-pequeno Jozu”, o protagonista da narrativa é um encantador de ratos que, por mais que queira evitar assuntos “querelantes”, insiste neles.

A gente nunca sabe por que há pessoas assim como o Stoltefus, pessoas que compreendem como é difícil ensinar um rato, e outras que têm nojo, quase todas, que fazem caras de nojo quando olham o rato e quando me olham também. Porque para mim todo mundo é gente, o rato também é gente, ele tem medo frio fome, e também se alegra e fica triste como a gente. Um rato não tem muito mistério não, as pessoas não entendem que ser rato é tão simples e tão complicado como ser gente. (p. 69-70)

Ao longo da narrativa, noto que o personagem se compara e se assemelha ao rato; sendo este um roedor, compreendo que Jozu é um “roedor” do sistema, que vive no poço, à margem da sociedade.
Já em “Rútilo nada”, texto publicado dezesseis anos depois, a crítica da autora converge para os preconceitos que visam interditar os desejos individuais. Lucis Kod se apaixona pelo namorado da filha: Lucas, rapaz de 20 anos, poeta e estudante de História.  Essa paixão, porém, é interditada pelo pai de Lucius, que, de certo modo, representa a Lei, o símbolo de castração.
Como a prosa hilstiana não segue certa tradição literária, que se aproxima do realismo, essa história não é contada de maneira linear. De início, o que se lê no texto é o desamparo de Lucius diante da morte de Lucas, que o provoca uma dor inominável. Nesse sentido, é interessante destacar a limitação da linguagem, que não é capaz de expressar os sentimentos que não têm nome.

Os sentimentos vastos não têm nome. Perdas, deslumbramentos, catástrofes do espírito, pesadelos da carne, os sentimentos vastos não têm boca, fundo de soturnez, mudo desvario, escuros enigmas habitados de vida mas sem sons, assim eu neste instante diante do teu corpo morto. Inventar palavras, quebrá-las, recompô-las, ajustar-me digno diante de tanta ferida, teria sido preciso, Lucas meu amor, meus 35 anos de vida colados a um indescritível verdugo, alguém Humano, e há tantos indescritíveis Humanos feitos de fúria e desesperança, existindo apenas para nos fazer conhecer o nome da torpeza e da agonia. (p. 85)

            A título de curiosidade acrescento que, ao que parece – tendo em conta que Hilda Hilst costuma partir de premissas religiosas – o nome “Lucius” não é gratuito: Lucius significa o “luminoso”, assim como Lúcifer é o que brilha e traz luz. Como se sabe, Lúcifer é aquele que se revoltou contra o Criador, assim como Lucius, que se revolta contra o pai.
            Ler Hilda Hilst é desconfortável, porém prazeroso. A autora tanto confronta uma determinada estética literária, quanto determinados valores cristalizados. Desde que iniciei a leitura de sua obra, tenho me sentido numa viagem sem volta.   

Link consultado: 
http://www.assis.unesp.br/Home/PosGraduacao/Letras/RevistaMiscelanea/v7/luciana.pdf
           
                                                                Hilda Hilst (1930-2004)


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Fluxo-Floema (1970)


HILST, Hilda. Fluxo-Floema. São Paulo: Editora Perspectiva, 1970.

Faz tempo que tenho vontade de ler Hilda Hilst e, enfim, realizei esse desejo ao ler seu primeiro texto de ficção: Fluxo-Floema, publicado em 1970 (por sorte, tenho comigo a primeira edição do livro). Segundo o crítico literário Leo Gibson Ribeiro, que escreveu um ensaio chamado “Da ficção”, sobre a autora, para o Caderno de Literatura Brasileira, Hilst costuma abordar temas tais como Deus, a solidariedade entre os homens, o nojo, a humildade, o martírio, o mistério, o terror, o misticismo e a miséria daqueles que são marginalizados por uma sociedade cruel.
Em Fluxo-Floema, ficção dividida em cinco partes — Fluxo; Osmo; Lázaro; O Unicórnio e Floema — a figura divina é o tema recorrente. Se, por um lado, a existência de Deus é colocada em dúvida, por outro, há uma busca desesperada por Ele. De “Lázaro”, destacamos os seguintes trechos para exemplificar como a autora coloca em cheque a figura divina:
Oh, Lázaro, filhinho, eu também acreditava Nele como tu. Muitos acreditavam Nele. Os mais humildes acreditavam Nele. E só posso te dizer que todos os que acreditavam Nele morriam mais depressa do que os outros. (p. 108)
Está dormindo, Lázaro? Dorme, dorme. Também vou dormir. O mundo inteiro dorme. E não te aborreças, mas... além de sabermos que o teu Jesus nunca existiu, sabemos também que Deus... oh, sabemos... Deus, Lázaro, Deus é agora a grande massa informe, a grande massa movediça, a grande massa sem lucidez. Dorme bem, filhinho. (p. 109)
A prosa de Hilda Hilst não é de fácil leitura, porque, como diz o crítico Ribeiro, ela parte de premissas filosóficas e religiosas. Na parte aqui citada como exemplo, a autora dialoga com a história bíblica que narra a ressurreição de Lázaro.
Em outro momento da narrativa, denominado “O Unicórnio”, Deus aparece como aquele que cuida dos seres humanos “a porretadas”:
Dizem: o teu Deus é um porco com mil mandíbulas escorrendo sangue e imundície.  Meu Deus. Meu Deus. O teu Deus nos cuida assim como os homens cuidam dos cães sarnentos: a porretadas. O teu Deus nos cuida assim como os homens cuidam das cobaias, para a morte, para a morte, nós todos a caminho da morte, repasto para o teu Deus e ele lá em cima, insaciável, dizendo: venham meus filhos, venham alimentar-me. (p. 127)
O que me parece é que a autora trata daquilo que escapa ao controle do homem e da suposição de que a maldade advém da própria divindade, desconstruindo, desse modo, a dicotomia Deus x diabo.
Além disso, em várias passagens, tenho a impressão de que Hilst problematiza determinados discursos que visam a uma verdade sobre algo: a questão da homossexualidade, por exemplo. Há personagens ditos pederastas e lésbicas.
Dizem também que todo sujeito sensível e delicado é um pederasta porque a sociedade atual é toda de agressão etc., e o cara acaba dando o cu por delicadeza e carência de afeto. É isso, carência de afeto. São os termos que usam. Não entendo, porque se eles são tão delicados, como é que eles aguentam esse troço? Não deve ser mole, não. (p. 70)
A autora retoma dizeres do senso comum para deslocar sentidos, como se pode ver acima. Será mesmo que todo homossexual é delicado?
Entre outras coisas, Hilst problematiza o próprio conceito de ficção:
(...) eu sei que poderia escrever ficção... mas isso não é bem ficção... isso que eu estou contando... Mas você tem uma ideia antiga de ficção, ficção é assim mesmo, com mais enxertos, enxertos de melhor qualidade, você compreende? (p. 120)
A partir disso, eu diria que ficção, para a autora, supõe correr um risco, tal como na vida, na qual o menininho tem que ir sempre “à procura do crisântemo”. Desse modo, a prosa de Hilda Hilst não tem começo, meio e fim, mas um fluxo de palavras e significantes que formam uma cadeia de sentidos que se abrem para várias possibilidades de interpretação.


Link para acessar online o Caderno de Literatura Brasileira sobre Hilda Hilst: http://blogdoims.com.br/cadernos-de-literatura-brasileira-disponiveis-online/

Hilda Hilst (1930-2004)

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Só garotos (2010)




SMITH, Patti. Só garotos. Tradução de Alexandre Barbosa de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

Só garotos, narrativa memorialista de Patti Smith, foi escrito em homenagem ao fotógrafo e parceiro de criações artísticas da autora: Robert Mapplethorpe. Nos anos 60, Patti deixou a casa dos pais para fugir de uma carreira de operária e tentar a vida em Nova York, sonhando em ser artista. Desde nova, ela sentia que não poderia suportar uma vida previsível.

Minha mãe venceu a discussão e vesti uma camisa, mas não consegui disfarçar a traição que senti cometer naquele momento. Eu via com pesar minha mãe desempenhando suas tarefas femininas, reparando em seu corpo bem-dotado de mulher. Parecia tudo contrário à minha natureza. O perfume intenso e o batom vermelho, tão forte nos anos 50, me revoltavam. Por algum tempo me senti mal por ela. Ela era a mensageira e também a mensagem. Deslumbrada e rebelde, com meu cachorro aos meus pés, eu sonhava em viajar. Em fugir e me alistar na Legião Estrangeira, mudar de patente e percorrer o deserto com meus homens. (SMITH, 2010, p. 19)

Ao chegar à cidade, Patti enfrentou vários perrengues provocados pela falta de dinheiro e, foi nesse período de dificuldades, que Robert cruzou o seu caminho para viver com ela uma belíssima história de amor e amizade.
Patti Smith narra a história de ambos tendo como pano de fundo o momento histórico e cultural da época, além de suas próprias referências literárias e musicais. Não é incomum que a autora compare Robert ao escritor francês Jean Genet ou que declare a influência de Rimbaud e do rock and roll em sua vida. Ademais, na época em que viveu no Hotel Chelsea, ela teve Gregory Corso, Allen Ginsberg e William Burroughs como professores, para citar apenas algumas das referências de Patti.
O Hotel Chelsea, por sua vez, diz respeito a uma das partes mais importantes do livro, porque foi por lá que Patti e Robert começaram a sair de uma situação de extrema pobreza e anonimato para conviver com artistas da época, como Janis Joplin, por exemplo. Desse modo, os outrora só garotos, aos poucos, começaram a se destacar no cenário artístico daquele tempo: ela como poetisa e, mais adiante, como líder de uma banda de rock e ele como fotógrafo.
A narrativa de Patti Smith provoca no leitor um misto de sentimentos, que vai desde a empolgação à decepção e à tristeza, porque é impossível não se sentir tocado pelo sofrimento que ronda a separação de ambos. O livro foi escrito anos após a morte de Robert Mapplethorpe, possivelmente porque, como diz a autora, o silêncio ainda não podia ser expressado.  

Por que não consigo escrever algo que faça despertar os mortos? Essa busca é o que arde mais fundo. Superei a perda de sua escrivaninha e da cadeira, mas nunca o desejo de produzir uma corrente de palavras mais valiosa que as esmeraldas de Cortés. Mas tenho um cacho de seu cabelo, um punhado de suas cinzas, uma caixa com suas cartas, um pandeiro de pele e de cabra. E nas dobras do desbotado lenço roxo um colar, com duas placas roxas escritas em árabe, enfileirando suas contas prateadas e pretas, que me deu o menino que amava Michelangelo. (SMITH, 2010, p. 254)


 Patti Smith (1946- )

  Patti Smith (1946- ) e Robert Mapplethorpe (1946-1989)

quinta-feira, 3 de março de 2016

Na América (1999)



SONTAG, Susan. Na América. Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

            A escritora norte-americana Susan Sontag, em 1966, escreve um texto, intitulado “O que está acontecendo na América”, em resposta a um questionário criado pelos editores da Partisan Review. Antes de responder às questões, a autora enumera, nesse texto, três fatos sobre os Estados Unidos. Ela pontua que o país foi fundado por meio de um brutal sistema de escravidão e criado, principalmente, pela população pobre excedente da Europa, além de um pequeno grupo que estava cansado do continente europeu.
            Em seu romance histórico, “Na América” – que se passa nos fins do século XIX – Sontag discute, entre outras coisas, a fundação dos Estados Unidos. Ao nos contar a história da atriz polonesa Maryna Zalezowska, que deixou o seu país de origem em busca de uma vida que se encaixasse nos moldes do socialismo utópico, a autora desmistifica a crença de que os Estados Unidos sejam um país livre. Maryna se instala com a sua família e com os seus amigos na Califórnia, onde tem mais vizinhos estrangeiros do que americanos, para a surpresa dela e dos outros. 
Na época, a Polônia havia sido repartida entre a Rússia, a Áustria e a Prússia, de modo que um polonês não era considerado um cidadão da Polônia. Por conta desse conturbado ambiente político, acrescido de um desejo de transformação, é que Maryna decide deixar o seu país. Vale lembrar que a história de Maryna Zalezowska teve como inspiração a atriz polonesa Helena Modjeska (1840-1909), que de fato se instalou com o marido perto da aldeia de Anaheim, na Califórnia, para se dedicar a uma vida simples de agricultores.
            Contudo, essa vida na qual todos, supostamente, teriam os mesmos direitos, é uma utopia e, de acordo com o narrador:

Todo casamento, toda comunidade é uma utopia fracassada. Utopia não é um tipo de lugar, mas uma espécie de tempo, aqueles momentos brevíssimos em que a pessoa não tem vontade de estar em nenhum outro lugar. Será que existe um instinto, um instinto muito antigo, de respirar em uníssono? Essa é a derradeira utopia. Na raiz do desejo de união sexual, está o desejo de respirar mais profundamente, e mais profundamente ainda, mais depressa... porém sempre juntos. (SONTAG, 2001, p. 220, grifo nosso)

            Além de nos descortinar a farsa dessa idealização, mostrando que a fundação dos Estados Unidos se dá de maneira violenta, a autora, que se posicionava como feminista, ressalta que o cotidiano da comunidade “organizava as mulheres para novas servidões” (SONTAG, 2001, p. 219). Desse modo, o discurso do “país da liberdade” apresenta outra problemática: a desigualdade entre homens e mulheres. Em contrapartida, Maryna, por ser artista, afasta-se desse estereótipo feminino, porque, se, por um lado “uma mulher não podia falar muita coisa”, por outro, “uma diva podia falar uma enormidade”. (SONTAG, 2001, p. 57). E, como artista, Maryna não deixava de se posicionar, deixando claro seus desejos, suas angústias e seus posicionamentos políticos.
Um dos temas principais do romance gira em torno da imagem que se tem da América versus a realidade da América, mas, obviamente, não só. “Na América” é também a história de uma mulher, de uma atriz, de seus amores e de sua incessante busca por transformação.
Para além disso, assim como em “O amante do vulcão”, a história (e me refiro aqui ao contexto no qual a narrativa se passa) é contada tendo como pressuposto o protagonismo e a participação de personagens femininas nos eventos históricos. Em ambos os romances de Susan Sontag, a história das mulheres também é contada, o que evidencia o papel de intelectual crítica que era desempenhado pela autora.
Vale acrescentar ainda que, bem como pode ser observado em “O amante do vulcão”, várias vozes se fazem presentes em “Na América”, de modo que, até na construção estética de sua obra, a autora tem a preocupação de nos apresentar pontos de vista e subjetividades distintas. E, ao que me parece, uma importante função da literatura é nos permitir entrar em contato com a pluralidade de pensamentos, para que não fiquemos embotados por sentidos que não circulam. Dito, pois, isso, acho que fica clara a importância de se ler a literatura de Susan Sontag, além, evidentemente, de seus fabulosos ensaios.

Referência bibliográfica:

SONTAG, Susan. O que está acontecendo na América (1966). In.___________ A vontade radical: estilos. Tradução de João Roberto Martins Filho. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 185-195. 


    
Susan Sontag (1933-2004)