quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Memórias do Subsolo (1864)


DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memórias do subsolo. Tradução de Boris Schnaiderman. São Paulo: Editora 34, 2009.

    “Memórias do subsolo”, do escritor russo Dostoiévski, não é um livro sobre o qual eu terei facilidade em discorrer. Certamente, é preciso lê-lo mais de uma vez para que eu possa apreender melhor a riqueza da obra. Mas, vamos lá!
Na primeira parte da narrativa – intitulada “O subsolo” –  acompanhamos a confissão de um homem russo do século XIX, que ocupa um cargo de assessor-colegial – “posto mediano da administração civil, no regime czarista”, de acordo com a nota explicativa do tradutor Boris Schnaiderman. Essa confissão pressupõe sempre a palavra do outro, ora antecipando-a, ora refutando-a.
Além disso, constatamos um cruzamento de vozes na voz do narrador, tendo em conta os diversos textos evocados pelo autor e as citações de autores contemporâneos da época de Dostoiévski. Sendo assim, percebemos uma tensa polêmica entre os vários discursos (MUYLAERT, 2008). O narrador, embora hostilize os outros a quem se dirige, necessita deles para construir o seu próprio monólogo.
De acordo com Muylaert (2008), “Memórias de subsolo” não é um reflexo ou uma reprodução da realidade, como seria, supostamente, o esperado de uma narrativa realista do século XIX, “mas constitui-se como reflexos de outros textos em incessante jogo de espelhos, revelando uma das marcas da modernidade narrativa, que conta entre seus principais fundadores o escritor russo” (MUYLAERT, 2008, p. 43).
Parte dos outros a quem o narrador se dirige, constitui o grupo de pensadores e intelectuais da época: os escritores românticos, os positivistas/ cientificistas, os liberais e os socialistas utópicos. Em dado momento da narrativa, o autor faz referência a um desses pensadores do século XIX: o historiador inglês H. T. Buckler (1821-1862), o qual supunha que a civilização fazia do homem um ser humano melhor.
O narrador, entretanto, refuta de maneira veemente tal afirmação:

Lançai um olhar ao redor: o sangue jorra em torrentes e, o que é mais, de modo tão alegre como se fosse champagne. Aí tendes todo o nosso século, em que viveu o próprio Buckle. (...) se o homem não se tornou mais sanguinário com a civilização, ficou com certeza sanguinário de modo pior, mais ignóbil que antes. Outrora, ele via justiça no massacre e destruía, de consciência tranquila, quem julgasse necessário; hoje, embora consideremos o derramamento de sangue uma ignomínia, assim mesmo ocupamo-nos com essa ignomínia, e mais ainda que outrora. (DOSTOIÉVSKI,  2009, p. 36)  

De temperamento pessimista e ressentido, o narrador de “Memórias do subsolo” critica tanto o conjunto de intelectuais daquele período quanto as pessoas com quem convive. E, embora se distancie desses outros, é contraditório ao querer manter um vínculo de afeto com aqueles que estão à sua volta. Ademais, o autor não nega o que há de ruim nele mesmo, uma vez que, numa sociedade doente, é impossível não se tornar também um doente.
Passada essa primeira parte do texto, na qual o personagem apresenta a visão que tem de si e do mundo, acompanhamos a segunda parte da narrativa, intitulada “A propósito da neve molhada”. Nesta, adentramos de fato nas memórias do sujeito, que passa a narrar acontecimentos e peripécias de sua vida, envolvendo outros personagens.
Tais acontecimentos representam toda a negatividade do narrador. Na passagem em que ele se envolve com a prostituta Liza, ele a enreda em seu espetáculo de autodegradação, que por sua vez, transforma-se em crueldade, como pontua Manuel da Costa Pinto.

Durante toda a vida, eu não podia sequer conceber em meu íntimo outro amor, e cheguei a tal ponto que, agora, chego a pensar por vezes que o amor consiste justamente no direito que o objeto amado voluntariamente nos concede de exercer tirania sobre ele. Mesmo nos meus devaneios subterrâneos, nunca pude conceber o amor senão como uma luta: começava sempre pelo ódio e terminava pela subjugação moral; depois não podia sequer imaginar o que fazer com o objeto subjugado. (DOSTOIÉVSKI, 2009, p. 142)

Desse modo, o narrador nega qualquer essência de bondade e compaixão que possa provir do ser humano, visto que este consiste em contradições, prazeres ignóbeis e sofrimentos. Resta ao sujeito da história o desespero e o remorso advindos de uma consciência que nega a alienação e que, portanto, sabe que nunca poderá ser como os “homens gerais” que são descritos nos livros.

Referência bibliográfica

 MUYLAERT, Joana Luiza. O drama da escrita em Memórias do Subsolo, de Dostoiévski. Itinerários, Araraquara, n. 26, 35-57, 2008.  <seer.fclar.unesp.br/itinerarios/article/download/1168/948>. Data de acesso: 24/01/2015. 



 Fiódor Dostoiévski (1821-1881)

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