quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Razão e sensibilidade (1811)


AUSTEN, Jane. Razão e sensibilidade. Tradução de Therezinha Monteiro Deutsch. Rio de Janeiro: BestBolso, 2015.

           Tentei ler “Razão e sensibilidade”, da escritora inglesa Jane Austen, sob uma perspectiva crítica a respeito da vida e do comportamento dos homens e mulheres que participam do romance, os quais passam os dias a visitar casas de amigos e a promover bailes. No caso das mulheres solteiras, tais encontros são fundamentais para que elas possam conhecer seus possíveis futuros maridos.
Elinor e Marianne, as protagonistas da narrativa, são filhas da senhora Dashwood, segunda mulher do pai das moças. Este, logo no início da história, vem a falecer. Inicialmente, elas residem em Norland Park, mas, com a morte do proprietário da casa e, em seguida, com a morte do pai das jovens e marido da senhora Dashwood, elas perdem a casa para o herdeiro, Sr. John Dashwood – filho do primeiro casamento do pai, portanto, meio irmão de Elinor e Marianne – e se mudam para um chalé situado em Barton.
Antes de falecer, o pai pede a John que ele cuide da esposa e das irmãs, pois temia pelo desamparo delas. O rapaz, a princípio, sente-se instigado a ajudá-las. Muda, entretanto, de atitude, ao conversar com Fanny, mulher com quem é casado. Ambos compartilham de um sentimento de ganância, desse modo, para John, ouvir Fanny, é ouvir uma aprovação do que ele deseja.  
O dinheiro, sem dúvida, é uma preocupação que interfere na trajetória de quase todas as personagens. Há ainda a preocupação com o casamento, visto que este pode possibilitar uma vida de conforto àqueles que têm uma renda menor. É pelo dinheiro, por exemplo, que a Sra. Ferrars, mãe de Fanny, quer ver seus filhos casados com mulheres que possam aumentar a fortuna da família. E é pelo dinheiro também que Willoughby decepciona Marianne.
Aliás, no que diz respeito ao comportamento de Willoughby, não pude deixar de observar que, ao se justificar para Elinor, por não ter desposado a irmã dela, o personagem faz uso de argumentos misóginos. Entre eles, insinua que abandonou uma moça grávida não apenas porque ambos tenham sucumbido ao desejo, mas por conta da “fraqueza de caráter” da mulher.

Reconheço que a situação e o caráter daquela moça deveriam ter sido respeitados por mim. Não estou querendo me justificar, porém, ao mesmo tempo, não posso deixar que a senhorita pense que nada tenho a dizer em minha defesa... Não se deve acreditar que, por ter sido ofendida, ela fosse irrepreensível, que por eu ter sido um libertino, ela tivesse de ser uma santa. Se a violência da paixão dessa jovem, a fraqueza de seu caráter... (AUSTEN, 2015, p. 334, grifo nosso)

Para mim, o romance de Austen, ao tratar de uma história que gira em torno da vida de duas mulheres, deixa claro, entre outras coisas, o histórico de misoginia que há anos marca o percurso de tantas figuras femininas. Infelizmente, Elinor recebe a justificativa de Willoughby com piedade, o que mostra também que o discurso machista é reproduzido pelas mulheres. Para ela, o jovem comete atos ignóbeis porque foi tornado “extravagante e vaidoso” pelo mundo, mas, na verdade, ele “tinha tendência a ser naturalmente franco e honesto, sensível e afetuoso”. (AUSTEN, 2015, p. 347)
Para além dessas observações, gostaria de enfatizar o que me parece ser de bastante relevância no romance: a ganância. Tal sentimento, visto não só nas personagens aqui citadas, mas também em figuras como a de Lucy, sustentam a dissimulação e a hipocrisia que permeiam os relacionamentos e as amizades. Nesse ponto, as irmãs Marianne e Elinor se diferenciam dos demais e sabem observar as falsidades humanas.

Marianne detestava toda simulação e apenas uma verdadeira desgraça poderia justificar para ela a falta de franqueza. Considerava que procurar reprimir sentimentos que nada tinham de reprováveis representava não só um esforço desnecessário, como também uma vergonhosa submissão à tirania do lugar-comum e às noções erradas. (AUSTEN, 2015, p. 61, grifo nosso)

Há várias passagens, além dessa, em que a autora critica a hipocrisia social, sobretudo por meio da personagem Marianne, que despreza a ideia de que um casamento possa ser somente um contrato comercial, no qual cada parte se beneficia à custa do outro.
Dito isso, posso dizer que me surpreendi com o romance de Jane Austen, que tanto pode ser lido de maneira ingênua, acompanhando-se uma “história de amor”, como pode ser lido de maneira crítica, observando a ironia e os comentários do narrador em terceira pessoa. “Razão e sensibilidade” representa uma grande crítica à hipocrisia das relações humanas.


Jane Austen (1775-1817)

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