quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Reparação (2001)


MCEWAN, Ian. Reparação. Tradução de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

Reparação: ação de restaurar ou consertar algo. Ao ler, no dicionário Houaiss, a definição dessa palavra, lembrei imediatamente de uma professora de português que me deu aula durante o ensino fundamental. Ela organizou a turma em roda e pediu que os alunos se mantivessem de pé, com uma folha A4. Em seguida, solicitou que todos amassassem o papel e tentassem desamassá-lo posteriormente. Eu e meus colegas tentamos, mas foi impossível recuperar a forma original do papel. Foi impossível restaurá-lo.
Briony Tallis, a protagonista de “Reparação”, cometeu um crime, aos 13 anos, em 1935. Não o cometeu por maldade, mas de nada servem as boas intenções quando se tem como resultado consequências irremediáveis. Ela cometeu um crime achando que estava protegendo a irmã mais velha, Cecília. Apesar dos danos que foram provocados pela atitude de Briony, não pude sentir raiva dela, porque também se machuca por amor, muitas vezes, causa-se mais sofrimento por amor do que por ódio.
Em um jantar, no qual a família Tallis se encontrava reunida, os gêmeos, primos de Briony, decidiram fugir de casa. Os presentes se viram na obrigação de procurá-los pelo exterior da habitação, embora soubessem que duas crianças de 9 anos não conseguiriam ultrapassar o limite do jardim que circundava a casa.
 A tragédia daquela noite, porém, não foi provocada pelo sumiço dos gêmeos, que aliás, como se imaginava, não conseguiram ir longe. A noite e a sombra das árvores camuflavam rostos conhecidos, o que encobriu de mistério o estupro de Lola, a irmã mais velha dos meninos sumidos. Briony, tendo chegado a tempo de ver um vulto se afastar da prima – mas não de identificá-lo – julgou, com base nas suas próprias fantasias, que o vulto correspondia a Robbie Turner, o filho da faxineira.   
A menina queria ser escritora, de fato, tornou-se uma escritora de sucesso no futuro. Robbie representava para ela um personagem complexo, alguém que se revestia de bondade para cometer atos cruéis. Desse modo, quando o viu próximo de sua irmã, despida, no lago; quando abriu e leu a carta erótica que ele escreveu para Cecília; quando presenciou, na biblioteca, o encontro amoroso de ambos; e quando, por fim, encontrou Lola debilitada, após um estupro, não teve dúvidas de que o criminoso só poderia ser Robbie Turner. Levada pelo impulso de proteger a irmã, acusou o rapaz, com convicção.
Na verdade, ela comprometeu a felicidade da irmã, que amava Robbie. Mais do que isso, ela acusou um homem que, nós leitores, desde o início sabemos ser inocente. Ele é preso e tratado como criminoso, enquanto o verdadeiro estuprador enriquece às custas da guerra, do sofrimento alheio.
Esse crime e a guerra causam marcas profundas em Robbie, em Cecília e, claro, em Briony também. Durante a guerra, ele se torna soldado e elas trabalham como enfermeiras. Os três se deparam com a injustiça, com a dor, com a separação e, cada qual, tem que saber lidar com esses sentimentos que perpassam a vida adulta e que geram consequências irreparáveis.
Briony passa uma vida a tentar reparar o erro que cometera no passado, mas nunca deixa de ser apenas uma “tentativa”, porque o papel não desamassa, porque “uma pessoa é, acima de tudo, uma coisa material, fácil de danificar e difícil de reparar”. Os erros que constituem a trajetória de todo ser humano se encarregam de danificá-lo.
Nesse sentido, a vida se separa da arte, o que talvez seja uma das mais belas mensagens do romance. Isso porque, o que não se resolve na vida, o que fica mal resolvido, pode ter um desfecho diferente na obra de arte. Não que o romance que Briony escreve e reescreve até a velhice represente uma reparação, não representa. Consertar o que foi desfeito é impossível, porque nem mesmo Deus pode perdoá-la, uma vez que, ao se tornar romancista, ela se iguala a Deus, pois determina os limites, as condições e os percursos dos personagens que transitam por sua narrativa.

O problema desses cinquenta e nove anos é este: como pode um romancista realizar uma reparação se, com seu poder absoluto de decidir como a história termina, ela é também Deus? Não há ninguém, nenhuma entidade ou ser mais elevado, a que ela possa apelar, ou com que possa reconciliar-se, ou que possa perdoá-la. Não há nada fora dela. Na sua imaginação ela determina os limites e as condições. Não há reparação possível para Deus nem para os romancistas, nem mesmo para os romancistas ateus. Desde o início a tarefa era inviável, e era justamente essa a questão. A tentativa era tudo. (MCEWAN, 2002, p. 443-444)

Ao ler “Reparação”, do escritor inglês Ian McEwan, eu me lembrei da minha professora pelo que ela queria nos dizer, mas, para além disso, eu fui levada a uma profunda introspecção, em busca do que também ainda tenho que “tentar”. Ademais, cada vez que leio um belo romance, corroboro, para mim mesma, o quanto a literatura é capaz de nos humanizar, de me humanizar, de me ensinar a lidar com o outro.  


Ian McEwan (1948- )