quinta-feira, 3 de março de 2016

Na América (1999)



SONTAG, Susan. Na América. Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

            A escritora norte-americana Susan Sontag, em 1966, escreve um texto, intitulado “O que está acontecendo na América”, em resposta a um questionário criado pelos editores da Partisan Review. Antes de responder às questões, a autora enumera, nesse texto, três fatos sobre os Estados Unidos. Ela pontua que o país foi fundado por meio de um brutal sistema de escravidão e criado, principalmente, pela população pobre excedente da Europa, além de um pequeno grupo que estava cansado do continente europeu.
            Em seu romance histórico, “Na América” – que se passa nos fins do século XIX – Sontag discute, entre outras coisas, a fundação dos Estados Unidos. Ao nos contar a história da atriz polonesa Maryna Zalezowska, que deixou o seu país de origem em busca de uma vida que se encaixasse nos moldes do socialismo utópico, a autora desmistifica a crença de que os Estados Unidos sejam um país livre. Maryna se instala com a sua família e com os seus amigos na Califórnia, onde tem mais vizinhos estrangeiros do que americanos, para a surpresa dela e dos outros. 
Na época, a Polônia havia sido repartida entre a Rússia, a Áustria e a Prússia, de modo que um polonês não era considerado um cidadão da Polônia. Por conta desse conturbado ambiente político, acrescido de um desejo de transformação, é que Maryna decide deixar o seu país. Vale lembrar que a história de Maryna Zalezowska teve como inspiração a atriz polonesa Helena Modjeska (1840-1909), que de fato se instalou com o marido perto da aldeia de Anaheim, na Califórnia, para se dedicar a uma vida simples de agricultores.
            Contudo, essa vida na qual todos, supostamente, teriam os mesmos direitos, é uma utopia e, de acordo com o narrador:

Todo casamento, toda comunidade é uma utopia fracassada. Utopia não é um tipo de lugar, mas uma espécie de tempo, aqueles momentos brevíssimos em que a pessoa não tem vontade de estar em nenhum outro lugar. Será que existe um instinto, um instinto muito antigo, de respirar em uníssono? Essa é a derradeira utopia. Na raiz do desejo de união sexual, está o desejo de respirar mais profundamente, e mais profundamente ainda, mais depressa... porém sempre juntos. (SONTAG, 2001, p. 220, grifo nosso)

            Além de nos descortinar a farsa dessa idealização, mostrando que a fundação dos Estados Unidos se dá de maneira violenta, a autora, que se posicionava como feminista, ressalta que o cotidiano da comunidade “organizava as mulheres para novas servidões” (SONTAG, 2001, p. 219). Desse modo, o discurso do “país da liberdade” apresenta outra problemática: a desigualdade entre homens e mulheres. Em contrapartida, Maryna, por ser artista, afasta-se desse estereótipo feminino, porque, se, por um lado “uma mulher não podia falar muita coisa”, por outro, “uma diva podia falar uma enormidade”. (SONTAG, 2001, p. 57). E, como artista, Maryna não deixava de se posicionar, deixando claro seus desejos, suas angústias e seus posicionamentos políticos.
Um dos temas principais do romance gira em torno da imagem que se tem da América versus a realidade da América, mas, obviamente, não só. “Na América” é também a história de uma mulher, de uma atriz, de seus amores e de sua incessante busca por transformação.
Para além disso, assim como em “O amante do vulcão”, a história (e me refiro aqui ao contexto no qual a narrativa se passa) é contada tendo como pressuposto o protagonismo e a participação de personagens femininas nos eventos históricos. Em ambos os romances de Susan Sontag, a história das mulheres também é contada, o que evidencia o papel de intelectual crítica que era desempenhado pela autora.
Vale acrescentar ainda que, bem como pode ser observado em “O amante do vulcão”, várias vozes se fazem presentes em “Na América”, de modo que, até na construção estética de sua obra, a autora tem a preocupação de nos apresentar pontos de vista e subjetividades distintas. E, ao que me parece, uma importante função da literatura é nos permitir entrar em contato com a pluralidade de pensamentos, para que não fiquemos embotados por sentidos que não circulam. Dito, pois, isso, acho que fica clara a importância de se ler a literatura de Susan Sontag, além, evidentemente, de seus fabulosos ensaios.

Referência bibliográfica:

SONTAG, Susan. O que está acontecendo na América (1966). In.___________ A vontade radical: estilos. Tradução de João Roberto Martins Filho. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 185-195. 


    
Susan Sontag (1933-2004)