quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Só garotos (2010)




SMITH, Patti. Só garotos. Tradução de Alexandre Barbosa de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

Só garotos, narrativa memorialista de Patti Smith, foi escrito em homenagem ao fotógrafo e parceiro de criações artísticas da autora: Robert Mapplethorpe. Nos anos 60, Patti deixou a casa dos pais para fugir de uma carreira de operária e tentar a vida em Nova York, sonhando em ser artista. Desde nova, ela sentia que não poderia suportar uma vida previsível.

Minha mãe venceu a discussão e vesti uma camisa, mas não consegui disfarçar a traição que senti cometer naquele momento. Eu via com pesar minha mãe desempenhando suas tarefas femininas, reparando em seu corpo bem-dotado de mulher. Parecia tudo contrário à minha natureza. O perfume intenso e o batom vermelho, tão forte nos anos 50, me revoltavam. Por algum tempo me senti mal por ela. Ela era a mensageira e também a mensagem. Deslumbrada e rebelde, com meu cachorro aos meus pés, eu sonhava em viajar. Em fugir e me alistar na Legião Estrangeira, mudar de patente e percorrer o deserto com meus homens. (SMITH, 2010, p. 19)

Ao chegar à cidade, Patti enfrentou vários perrengues provocados pela falta de dinheiro e, foi nesse período de dificuldades, que Robert cruzou o seu caminho para viver com ela uma belíssima história de amor e amizade.
Patti Smith narra a história de ambos tendo como pano de fundo o momento histórico e cultural da época, além de suas próprias referências literárias e musicais. Não é incomum que a autora compare Robert ao escritor francês Jean Genet ou que declare a influência de Rimbaud e do rock and roll em sua vida. Ademais, na época em que viveu no Hotel Chelsea, ela teve Gregory Corso, Allen Ginsberg e William Burroughs como professores, para citar apenas algumas das referências de Patti.
O Hotel Chelsea, por sua vez, diz respeito a uma das partes mais importantes do livro, porque foi por lá que Patti e Robert começaram a sair de uma situação de extrema pobreza e anonimato para conviver com artistas da época, como Janis Joplin, por exemplo. Desse modo, os outrora só garotos, aos poucos, começaram a se destacar no cenário artístico daquele tempo: ela como poetisa e, mais adiante, como líder de uma banda de rock e ele como fotógrafo.
A narrativa de Patti Smith provoca no leitor um misto de sentimentos, que vai desde a empolgação à decepção e à tristeza, porque é impossível não se sentir tocado pelo sofrimento que ronda a separação de ambos. O livro foi escrito anos após a morte de Robert Mapplethorpe, possivelmente porque, como diz a autora, o silêncio ainda não podia ser expressado.  

Por que não consigo escrever algo que faça despertar os mortos? Essa busca é o que arde mais fundo. Superei a perda de sua escrivaninha e da cadeira, mas nunca o desejo de produzir uma corrente de palavras mais valiosa que as esmeraldas de Cortés. Mas tenho um cacho de seu cabelo, um punhado de suas cinzas, uma caixa com suas cartas, um pandeiro de pele e de cabra. E nas dobras do desbotado lenço roxo um colar, com duas placas roxas escritas em árabe, enfileirando suas contas prateadas e pretas, que me deu o menino que amava Michelangelo. (SMITH, 2010, p. 254)


 Patti Smith (1946- )

  Patti Smith (1946- ) e Robert Mapplethorpe (1946-1989)