quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Fluxo-Floema (1970)


HILST, Hilda. Fluxo-Floema. São Paulo: Editora Perspectiva, 1970.

Faz tempo que tenho vontade de ler Hilda Hilst e, enfim, realizei esse desejo ao ler seu primeiro texto de ficção: Fluxo-Floema, publicado em 1970 (por sorte, tenho comigo a primeira edição do livro). Segundo o crítico literário Leo Gibson Ribeiro, que escreveu um ensaio chamado “Da ficção”, sobre a autora, para o Caderno de Literatura Brasileira, Hilst costuma abordar temas tais como Deus, a solidariedade entre os homens, o nojo, a humildade, o martírio, o mistério, o terror, o misticismo e a miséria daqueles que são marginalizados por uma sociedade cruel.
Em Fluxo-Floema, ficção dividida em cinco partes — Fluxo; Osmo; Lázaro; O Unicórnio e Floema — a figura divina é o tema recorrente. Se, por um lado, a existência de Deus é colocada em dúvida, por outro, há uma busca desesperada por Ele. De “Lázaro”, destacamos os seguintes trechos para exemplificar como a autora coloca em cheque a figura divina:
Oh, Lázaro, filhinho, eu também acreditava Nele como tu. Muitos acreditavam Nele. Os mais humildes acreditavam Nele. E só posso te dizer que todos os que acreditavam Nele morriam mais depressa do que os outros. (p. 108)
Está dormindo, Lázaro? Dorme, dorme. Também vou dormir. O mundo inteiro dorme. E não te aborreças, mas... além de sabermos que o teu Jesus nunca existiu, sabemos também que Deus... oh, sabemos... Deus, Lázaro, Deus é agora a grande massa informe, a grande massa movediça, a grande massa sem lucidez. Dorme bem, filhinho. (p. 109)
A prosa de Hilda Hilst não é de fácil leitura, porque, como diz o crítico Ribeiro, ela parte de premissas filosóficas e religiosas. Na parte aqui citada como exemplo, a autora dialoga com a história bíblica que narra a ressurreição de Lázaro.
Em outro momento da narrativa, denominado “O Unicórnio”, Deus aparece como aquele que cuida dos seres humanos “a porretadas”:
Dizem: o teu Deus é um porco com mil mandíbulas escorrendo sangue e imundície.  Meu Deus. Meu Deus. O teu Deus nos cuida assim como os homens cuidam dos cães sarnentos: a porretadas. O teu Deus nos cuida assim como os homens cuidam das cobaias, para a morte, para a morte, nós todos a caminho da morte, repasto para o teu Deus e ele lá em cima, insaciável, dizendo: venham meus filhos, venham alimentar-me. (p. 127)
O que me parece é que a autora trata daquilo que escapa ao controle do homem e da suposição de que a maldade advém da própria divindade, desconstruindo, desse modo, a dicotomia Deus x diabo.
Além disso, em várias passagens, tenho a impressão de que Hilst problematiza determinados discursos que visam a uma verdade sobre algo: a questão da homossexualidade, por exemplo. Há personagens ditos pederastas e lésbicas.
Dizem também que todo sujeito sensível e delicado é um pederasta porque a sociedade atual é toda de agressão etc., e o cara acaba dando o cu por delicadeza e carência de afeto. É isso, carência de afeto. São os termos que usam. Não entendo, porque se eles são tão delicados, como é que eles aguentam esse troço? Não deve ser mole, não. (p. 70)
A autora retoma dizeres do senso comum para deslocar sentidos, como se pode ver acima. Será mesmo que todo homossexual é delicado?
Entre outras coisas, Hilst problematiza o próprio conceito de ficção:
(...) eu sei que poderia escrever ficção... mas isso não é bem ficção... isso que eu estou contando... Mas você tem uma ideia antiga de ficção, ficção é assim mesmo, com mais enxertos, enxertos de melhor qualidade, você compreende? (p. 120)
A partir disso, eu diria que ficção, para a autora, supõe correr um risco, tal como na vida, na qual o menininho tem que ir sempre “à procura do crisântemo”. Desse modo, a prosa de Hilda Hilst não tem começo, meio e fim, mas um fluxo de palavras e significantes que formam uma cadeia de sentidos que se abrem para várias possibilidades de interpretação.


Link para acessar online o Caderno de Literatura Brasileira sobre Hilda Hilst: http://blogdoims.com.br/cadernos-de-literatura-brasileira-disponiveis-online/

Hilda Hilst (1930-2004)

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