quinta-feira, 22 de junho de 2017

Teoria King Kong (2006)

DESPENTES, Virginie. Teoria King Kong. Tradução de Márcia Bechara. São Paulo: n-1 edições, 2016.

            Um tapa na cara dos hipócritas: é a primeira frase que me vem à mente após a leitura do livro da escritora francesa Virginie Despentes. A autora escreve de maneira simples, quase como se buscasse estabelecer uma conversa com seus leitores, a fim de explicitar o posicionamento dela como feminista. Para isso, ela dialoga com outras feministas, a saber: Camille Paglia, Angela Davis, Claire Carthonnet, Judith Butler e etc.
            Despentes parte de sua própria experiência de vida para abordar o feminismo, de modo que, além de uma base teórica, há uma base testemunhal na narrativa dela. Nascida em 1969, a autora foi fortemente influenciada pela cultura punk, que a impulsionou a buscar a própria independência, mesmo antes de ela entrar em contato com o feminismo. Ainda nova Despentes decidiu se aventurar pela vida que há fora de casa, refutando a ideia de que mulheres devem ficar circunscritas à vida doméstica.
            Tal decisão não foi sem consequências: ela foi estuprada. E, é a partir dessa experiência, que Despentes propõe uma reflexão sobre o estupro, dialogando com Paglia. Aquela afirma que esta foi “a primeira a tirar o estupro do horror absoluto, do não dito” e a circunscrever o estupro em “uma circunstância política”. De acordo com Despentes, “Paglia transformava tudo: não se tratava de negar nem de sucumbir, se tratava de viver com.” (p. 36) Nesse sentido, o estupro deve ser tirado da esfera do drama e ser considerado como algo fundante na condição da mulher; ademais, deve ser nomeado como aquilo que é: um estupro, tendo em vista que aquilo que não é nomeado está à margem do simbólico. É necessário que a violência seja significada para que possa haver possibilidade de cura.
            Dando continuidade a reflexão, a escritora aponta para a hipocrisia daqueles que argumentam que a pornografia alimenta a cultura do estupro: Dizem com frequência que a pornografia aumenta o número de estupros. Hipócrita e absurdo. Como se a agressão sexual fosse uma invenção recente, e como se tivesse sido introduzida em nossos espíritos através dos filmes. (p. 30) Do ponto de vista da autora, a agressão contra a mulher não pode ser lida como “um fenômeno recente ou próprio de um grupo específico”. Além disso, Despentes aponta para a desonestidade de se ver a pornografia como um gênero homogêneo, quando, na verdade, há diversas maneiras de se fazer pornografia.  
            A autora acrescenta que a defesa da censura da pornografia e da prostituição é sustentada pela moral judaico-cristã, que culpabiliza aqueles que buscam resistir. Despentes se posiciona contra a hipocrisia e a moral vigente, defendendo o direto de venda do sexo e a legitimação dessa escolha profissional:
            As condições de trabalho das atrizes, os contratos aberrantes que elas assinam, a impossibilidade de controlar o uso de sua própria imagem quando abandonam a profissão, ou de serem remuneradas quando sua imagem é utilizada, essa dimensão da dignidade feminina não interessa aos censores. O fato de não existir nenhum centro de apoio especializado em que elas possam encontrar informações diversificadas sobre as particularidades de sua profissão não interessa aos poderes públicos. Há uma dignidade que os preocupa, e uma outra que não interessa a ninguém. Mas o pornô é feito com carne humana, a carne da atriz. E, no final, ele só suscita um único problema moral: a agressividade com que são tratadas as atrizes pornô. (p. 80-81)
            A escritora aponta que essa vitimização da profissional do sexo é falsa, bem como a preocupação com a dignidade da mulher. Na perspectiva da autora, o que deve haver são melhores condições e direitos trabalhistas para as mulheres que decidem se prostituir.
Em Teoria King Kong, Despentes argumenta ainda que a discriminação da prostituição serve de base para sustentar a instituição do casamento. Nessa perspectiva, o casamento seria mais opressor do que a prostituição, uma vez que a puta, terminado o serviço, pode, pelo menos, “ir dar uma volta tranquila” (p. 63), diferente da mulher casada, que abdica de sua independência para se encarcerar em um padrão de vida heteronormativo.  
No fim das contas, para a autora, o machismo se trata sobretudo de um problema de luta de classes. É necessário que o corpo das mulheres seja controlado pelos homens para que se mantenham os princípios e a estrutura da sociedade burguesa; por outro lado, o machismo também afeta os corpos dos homens, que são controlados pelos meios de produção em tempos de paz, ou, pelo Estado, em tempos de guerra. Desse modo, o feminismo é urgente para possibilitar uma revolução social, da qual todos façam parte.
Teoria King Kong diz respeito a essa necessidade que temos de uma revolução feminista. Despentes explica, a partir de uma breve análise do filme de Peter Jackson, o porquê do uso metafórico de King Kong:
 King Kong, aqui, funciona como a metáfora de uma sexualidade que precede a distinção de gêneros tal como politicamente imposta no final do século XIX. King Kong encontra-se além da fêmea e além do macho. Esse ser está na encruzilhada entre o homem e o animal, o adulto e a criança, o bom e o mau, o primitivo e o civilizado, o branco e o preto. Híbrido, diante da obrigatoriedade do binário. A ilha do filme é a possibilidade de uma forma de sexualidade polimorfa e superpoderosa. Aquilo que o cinema deseja capturar, exibir, desnaturalizar e depois exterminar. (p. 94)
A revolução terá acontecido, portanto, quando formos capazes de dinamitar a distinção de gêneros que nos foi imposta. Para isso, é necessário que retornemos à ilha que precede a civilização e nos encontremos com o que há de híbrido e peludo em nós.
Virginie Despentes (1969- )

sábado, 27 de maio de 2017

A sangue frio (1966)

CAPOTE, Truman. A sangue frio: O relato fiel de um assassinato múltiplo e suas complicações. Tradução de Ivan Lessa. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1966.


            Em 15 de novembro de 1959, quando ocorreu um brutal assassinato na cidade de Holcomb, no estado do Kansas, o escritor norte-americano Truman Capote já era reconhecido e famoso. A novela Bonequinha de luxo (1958), por exemplo, já havia sido publicada. Capote, que toma conhecimento do crime pelo jornal, encontra na matéria a oportunidade de acompanhar uma história que lhe possibilitará inaugurar um novo gênero literário: o romance de não-ficção.
O escritor decide ir para o Kansas junto com sua amiga Harper Lee, a fim de acompanhar o desenrolar do ocorrido e de entrevistar pessoas próximas à família que fora assassinada, para escrever o seu romance a partir de uma reportagem. A família era composta pelo pai Herbert Clutter, pela mãe Bonnie Clutter e pelos filhos Kenyon, Nancy, Beverly e Eveanna, sendo que as duas últimas não moravam mais com os pais, de modo que foram as únicas sobreviventes do assassinato.
O romance descreve o crime de maneira bem realista, porque explicita com riqueza de detalhes o estado em que os cadáveres foram encontrados: amarrados e amordaçados, com marcas de tiros de espingarda. Se, por um lado, nos sensibilizamos com a dor daqueles que sentiram a morte dos Clutter, por outro, dificilmente deixamos de ter simpatia pelos assassinos. Isso porque, em A sangue frio, vislumbramos os diferentes pontos de vista dos personagens dessa história macabra.  
Os assassinos são Perry Smith e Richard Hickock, frequentemente chamado de Dick. O protagonismo da história é destinado a Perry, que tendo passado por uma infância difícil, apresenta certo desequilíbrio emocional (dizem que, na época, Capote chegou a nutrir um sentimento de paixão por ele). Perry acredita em tesouros escondidos, faz xixi na cama e chora como se ainda fosse criança; além disso, ele gosta de desenhar e de escrever em um diário. Trata-se de um personagem que teve sonhos e talentos abortados por conta das circunstâncias adversas da vida.
No oposto extremo, encontra-se Nancy, que também teve sua vida abortada, mas que, diferente de Perry, recebera instrução e crescera em uma família abastada que teria dado respaldo a todos os sonhos dela, caso estes não tivessem sido interrompidos. Com isso, Capote mostra como duas vidas completamente distintas podem ser esfaceladas.
A sangue frio é um romance que aborda as consequências de um assassinato na vida de pessoas de uma cidade pequena e na vida dos próprios assassinos, problematizando questões como a moral e a pena de morte, que era permitida em Kansas. Na passagem do livro apresentada a seguir, Perry, já condenado à forca, diz a um amigo:  

Os soldados não sofrem de insônia. Matam e ganham medalhas por terem matado. Este bom povo de Kansas quer me matar - e algum carrasco terá prazer em executar o trabalho. É fácil matar - bem mais fácil que passar um cheque sem fundos. Lembre-se que eu conheci os Clutter por uma hora apenas. Se os tivesse conhecido de verdade, talvez me sentisse diferente. Acho que não conseguiria viver comigo mesmo. Mas do jeito que as coisas aconteceram, foi como derrubar alvos num stand de tiro. (p. 326)

            Ao narrar a história desse crime e ao dar voz aos assassinos, Capote coloca em cheque evidências que podemos ter sobre a figura do bandido e nos leva a enxergar que criminosos não são monstros ou malucos como alguns gostariam de supor, mas humanos, como todos os outros. Desse modo, os dois lados da moeda nos são apresentados e percebemos que o instinto assassino faz parte do humano, ainda que ele só aflore em alguns. A diferença é que, enquanto uns saem pela porta da frente, outros saem pela porta de trás e vivem à margem da sociedade.
  
 Truman Capote (1924-1984)

sábado, 6 de maio de 2017

Helena (1876)


ASSIS, Machado de. Helena. São Paulo: Globo, 1997.

            O romance Helena, de Machado de Assis, foi publicado em 1876, mas a narrativa é ambientada em abril de 1850, no Andaraí, bairro do Rio de Janeiro. Trata-se, portanto, de uma narrativa construída em um Brasil já independente, porém, ainda escravocrata e extremamente patriarcal.
            A jovem Helena tem entre dezesseis e dezessete anos e passa a habitar a casa do Andaraí após a morte do Conselheiro Vale, que lhe reivindicou a paternidade e a inseriu em seu testamento como herdeira, para a surpresa da família, que, até então, desconhecia a existência de Helena. A moça, de origem enigmática e suspeita passa, pois, a participar da vida da casa grande, como um imigrante que chega para desestabilizar a suposta configuração harmônica de um meio social.
            Helena, embora reproduza os estereótipos de feminilidade associados à figura da mulher (ela é sensível, frágil e delicada), vai além, ao se mostrar independente na maneira de pensar e ao questionar, em alguns momentos, seu irmão, Estácio, que é a figura de autoridade da família, estando abaixo apenas do padre, outra personagem importante do romance, sobre a qual, entretanto, não me debruçarei. Não quero dizer com isso que a protagonista encarne uma rebelde ou uma contestadora da sociedade patriarcal, mesmo porque, o contexto não lhe permitiria; de todo modo, é inegável que Machado constrói uma personagem que produz um ruído na suposta solidez dessa sociedade.  
            O romance machadiano discute escravidão, liberdade, bem como relações sociais e amorosas que se constroem a partir dos limites impostos por aquela estrutura de sociedade. Em uma bela passagem da narrativa, enquanto caminha com seu irmão, Estácio, Helena o questiona sobre o fato da riqueza, para ele, ser motivo de umas das maiores felicidades da Terra. Na perspectiva do rapaz, “a riqueza compra até o tempo”, já que, ele, em posse de um cavalo, pode fazer em menos tempo o mesmo trajeto que um escravo levará uma hora ou mais, a pé. Em contrapartida, Helena lhe diz:

O essencial não é fazer muita cousa no menor prazo; é fazer muita coisa aprazível ou útil. Para aquele preto o mais aprazível é, talvez, esse mesmo caminhar a pé, que lhe alongará a jornada, e lhe fará esquecer o cativeiro, se é cativo. É uma hora de pura liberdade. (p. 37)

            Esse diálogo é emblemático para mim porque, ao longo da narrativa, parece-me sempre estarem em questão os diversos sentidos sobre o que é ser um escravo e sobre o que é ser um homem livre e bem-sucedido. Não seriam todos escravos? Na configuração do romance, creio que sim. Estácio é escravo de leis terrestres e divinas que o impedem de se unir à mulher que ele ama, e, Helena é escrava de um destino que não escolheu e se encontra, a todo o momento, despossuída daquilo que é basilar em quaisquer sujeitos: o desejo. Em uma sociedade escravocrata e patriarcal, ela, como mulher, deve obediência aos senhores, o que a impossibilita de assumir as rédeas de suas vontades e desejos. Em outras palavras, Helena é sempre refém do desejo do outro, não à toa o seu fim é trágico. Para corroborar o que digo, atenho-me a um trecho da fala de Helena: “Há criaturas tão malfadadas, que aqueles mesmos que as desejam fazer venturosas não alcançam mais do que preparar-lhe o infortúnio” (p. 178), ou seja, é comum que, em defesa do amor, de se querer o bem ao próximo, faça-se o mal, quando, bastava, para se fazer o bem, oferecer uma escuta e um espaço para a voz e para o desejo do outro.      
            Helena é um belíssimo romance, de enredo simples, mas que nos deixa sobressaltado e preso até a última página; é daquelas histórias que você tem pressa de terminar para descobrir o desfecho, mas que lamenta quando enfim termina a leitura. É lindo, comovente e trágico!  


Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908)

sábado, 4 de fevereiro de 2017

A marca humana (2002)

ROTH, Philip. A marca humana. Tradução de Paulo Henrique Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.


            O romance A marca humana compõe a trilogia sobre a vida na América do pós-guerra, ao lado dos romances A pastoral americana e Casei com um comunista. Assim como em A pastoral americana, a história de A marca humana é narrada pelo alter ego do autor, Nathan Zuckerman.   
            Dessa vez, o personagem central de Zuckerman é um professor universitário de letras clássicas: Coleman Silk, um homem de setenta anos que vê sua vida profissional e pessoal arruinada por uma acusação de racismo e abuso sexual. Acusação essa que, diga-se de passagem, não se sustenta, como entendemos ao longo da leitura do romance.
            Silk é acusado de racismo por chamar dois alunos negros de spooks, no momento em que fazia a chamada da turma: “Alguém conhece essas pessoas? Elas existem mesmo ou será que são spooks? (p. 15)” O termo se refere a fantasmas, mas também pode ser uma atribuição pejorativa para denominar negros. No caso de Silk, ele faz uso da expressão sem sequer saber que seus alunos são negros, porque, na verdade, os tais alunos nunca foram às aulas deles, de modo que ele usa o termo no sentido de fantasma.
            Apesar disso, o caso provoca um reboliço na Universidade e Silk se vê as voltas com uma acusação infundada de racismo, a qual fora registrada pelos alunos que não assistiam às aulas. Para completar a decepção de Silk, nem os colegas de trabalho o apoiam. Ao contrário, ele chega a se ver perseguido pela diretora do departamento e professora de francês Delphine Roux, que, como diz o narrador, não tem consciência de que ninguém é capaz de alcançar a verdade de cada um.
            A acusação de misoginia e abuso sexual, bem como a de racismo, é infundada, mas se justifica pelo cenário político da época. O ano é 1998, época em que os Estados Unidos foram tomados por uma histeria puritana e moralista, em decorrência do escândalo sexual que envolveu o presidente da República Bill Clinton e a estagiária Mônica Lewinsky, na Casa Branca. Silk não trai a esposa, como fizera Clinton, mesmo porque, ele é viúvo; mas se envolve com uma faxineira da Faculdade Athena supostamente analfabeta, que é bem mais nova do que ele.
            Algumas pessoas (lê-se: principalmente Delphine Roux), ao saberem do relacionamento de ambos, passam a repudiar Silk, sob o argumento de que ele é um velho misógino que quer se aproveitar de uma jovem inocente. Se, por um lado, ele de fato assume uma fala controversa ao afirmar que a moça, Faunia Farley, deve ser boa de cama por já ter sido molestada, por outro, ela de modo algum é uma vítima dele. Faunia se relaciona com Silk por vontade e desejo próprios e, em nenhum momento da narrativa, ela se sente incomodada ao lado dele.
            O romance aponta para uma crítica ferrenha a onda de puritanismo e moralismo que predomina não só na sociedade, mas também na universidade, lugar onde, teoricamente, deveria predominar o pensamento intelectual.

Basta fazer a acusação que ela está provada. Basta ouvir a alegação para que se dê crédito a ela. Não é preciso encontrar uma motivação para o perpetrador, não é preciso que haja nenhuma lógica nem razão. Basta um rótulo. O rótulo é a motivação. O rótulo é a prova. O rótulo é a lógica. Por que Coleman Silk fez isso? Porque ele é x, porque ele é y, porque ele é as duas coisas. Primeiro racista, depois misógino. A esta altura do século XX, já não se pode dizer que ele é comunista, como se fazia antigamente. Um ato de misoginia cometido por um homem que já se mostrou capaz de fazer um comentário racista venenoso, prejudicando uma aluna vulnerável. Isso explica tudo. Isso, e mais a loucura. (p. 368)

Até aqui, talvez eu tenha dado a impressão de que Silk é uma vítima dos acontecimentos, porém, julgando que ainda estou em tempo de me redimir, quero registrar que a narrativa não recorre a clichês maniqueístas, isto é, não se trata de uma história do bem contra o mal, não existem mocinhos nem bandidos. Arrisco-me a dizer que sequer existem oprimidos e opressores no romance de Philip Roth. Os personagens assumem posicionamentos diversos conforme as adversidades da vida.
Coleman Silk tem um segredo, que, aliás, não pretendo revelar neste texto. Esse sim, para lá de questionável e problemático. Zuckerman, o escritor aficionado pela vida de pessoas comuns, entende Silk como um homem que foi capaz de “forjar um destino histórico só para si próprio”, mas que não pôde fugir à história “que está transcorrendo agora no relógio em cada tique-taque”. Dito de outra maneira, Zuckerman quer dizer que ninguém pode escapar ao destino comum, que está interligado ao momento em que se vive. Desse modo, não podemos nos ver livres do fato de que somos homens de nosso tempo, marcados pelos traços de humanidade, que se confundem entre o bem e o mal. Diante disso, quaisquer rótulos caem por terra.

Philip Roth: um escritor necessário e genial, que problematiza questões que, certamente, afetam não só aos americanos ou aos judeus, mas a todos nós. Por fim, concordo com o professor Silk que tem que se ter cuidado com a leitura rasa e apressada que se faz de determinadas obras, para que não as rotulemos a partir de certas nomenclaturas que só contribuem para o empobrecimento do pensamento intelectual.

 Philip Roth (1933 - )

sábado, 21 de janeiro de 2017

A chave de casa (2007)


LEVY, Tatiana Salem. A chave de casa. Rio de Janeiro: Record, 2014.

            A chave de casa é o romance de estreia da autora brasileira Tatiana Salem Levy, o qual trata da questão da memória, da herança que é passada no silêncio, do luto e da dor. De antemão, ao lermos a epígrafe do romance – um poema de Emily Dickinson – já antevemos o tema da narrativa, que gira em torno da impossibilidade de o tempo fechar uma ferida.  
            Tudo começa quando a personagem-narradora recebe do avô uma chave. Ele passou a chave para a neta porque não queria se desfazer do objeto que o remetia ao passado, à casa que ele deixara para trás na Turquia. Por já ser um homem velho, optou por transmitir a sua história para um descendente.
            Em posse da chave, a personagem se sente no lugar de herdeira, uma vez que lhe foi transmitida uma história que não é sua, mas que, ao mesmo tempo, é. Ela se vê, então, diante de um dilema: O que fazer com a chave e com a história de seu avô? Como esquecer e não esquecer?
            O avô não lhe faz nenhum pedido, porém, a personagem sente que a herança lhe é passada no silêncio. Este, por sua vez, vem carregado de dores e perdas, o que reafirma as palavras de Dickinson: “Dizem que o tempo ameniza./ Isso é faltar com a verdade./ Dor real se fortalece/ Como os músculos, com a idade”. É assim que a personagem, de início, pode afirmar que já nascera velha:

Nasci com cheiro de terra úmida, o bafo de tempos antigos sobre o meu dorso. Falo de um peso que carrego nas costas, um peso que me endurece os ombros e me torce o pescoço, que me deixa dias a fio – às vezes um, dois meses – com a cabeça na mesma posição. Um peso que não é todo meu, pois já nasci com ele, como se toda vez em que digo “eu” estivesse dizendo “nós”. Falo sempre na companhia desse sopro que me segue desde o primeiro dia. (p. 9)  

            Nesse sentido, o romance é bastante interessante, porque nos leva a refletir sobre a construção do “eu”, que não é sem o olhar do outro, sem a história que nos antecede. Em contrapartida, para que o “eu” possa se configurar em um sujeito independente e singular, é necessário também se afastar da história do outro.
Dessa maneira, embora não esquecer seja importante, esquecer é fundamental para seguir adiante e não se ver sempre numa posição de imobilidade. Sendo assim, o sujeito se constrói na tensão entre a memória e o esquecimento, tendo em conta que um não é sem o outro. Vale lembrar ainda que se trata aqui tanto de uma memória da alegria quanto de uma memória da dor, ambas capazes de se fortalecer com o tempo.
Fora esse fio narrativo principal, acompanhamos ainda a experiência de luto da personagem-narradora: seja o luto por ter perdido a mãe, seja o luto de uma relação abusiva com um homem violento que a deixou marcas profundas. Portanto, o que vislumbramos na narrativa são fragmentos de uma memória que pretendem contar a história da família e, sobretudo, a própria história da personagem, que é particular, ainda que esteja imbricada às experiências de outrem.


     Tatiana Salem Levy (1979- )

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Pastoral Americana (1997)

                                                  

ROTH, Philip. Pastoral Americana. Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

            Pastoral americana é um romance de quase 500 páginas, dividido em três partes: “Paraíso relembrado”; “A queda”; e “Paraíso perdido”. O romance conta a história de Seymour Levov, mais conhecido pelo apelido de “Sueco”; protagonista que simboliza a derrocada do sonho americano.
            Nathan Zuckerman, o alter-ego de Philip Roth, tem um encontro com seu ídolo da infância: o Sueco. Este lhe escreve uma carta, solicitando-lhe um encontro, porque quer que a história de seu pai, recentemente falecido, e a história da fábrica de luvas, sejam narradas por um escritor reconhecido pela crítica. Zuckerman aceita encontrá-lo, porque sempre foi fascinado pela figura do Sueco, que outrora fora campeão do time de beisebol da escola secundária de Newark.
            Atleta brilhante, judeu, loiro de olhos azuis, alto e belo, Seymour Levov representava a esperança, a fantasia de uma vida americana distante da guerra e de quaisquer dissabores, sobretudo para os judeus, que enxergavam na América a possibilidade de um paraíso.
            O encontro, porém, é decepcionante para Zuckerman, tendo em vista que o Sueco, em vez de falar do que lhe afligia e de oferecer ao escritor uma boa história, passa a noite tecendo elogios aos filhos do segundo casamento. Ao longo da narrativa, entenderemos que o silêncio de Levov, ao contrário do que pensa Zuckerman, está repleto de sentidos, além de significar uma dor inominável. Compreendemos, nesse sentido, que a comunicação é falha e que a tentativa de conhecer o outro é sempre imaginária.  
            Algum tempo depois, Zuckerman reencontra um antigo amigo numa reunião de ex-alunos da escola secundária: Jerry, o irmão mais novo do Sueco. Jerry, então, conta a ele que o Sueco faleceu, porque estava enfermo de um câncer em estado terminal. Conta-lhe também sobre a primeira filha de Seymour e Dawn Dwyer: Merry Levov, que em 1968, durante a guerra do Vietnã, aos 16 anos, explodiu um mercadinho e uma agência de correios com uma bomba, matando um inocente.
            Chocado com a história que ouve, a qual desfaz suas fantasias sobre a vida perfeita do Sueco, Zuckerman decide escrever um romance sobre a vida de Seymour Levov. É a partir da imaginação do alter-ego de Pilip Roth que acompanhamos, pois, a trajetória de seu ídolo da infância.
            O Sueco vivia num mar de ilusões. Herdeiro de uma fábrica de luvas de sucesso, rico, portanto; e casado com a miss New Jersey, ou seja, com uma das mulheres mais lindas da cidade, ele pensava que não havia nada que pudesse dar errado em seu lar. Merry, a quarta geração dos Levov, nascera, do ponto de vista dele, para dar continuidade a esse sonho de uma pastoral americana.

Uma esposa linda. Uma casa linda. Cuida dos negócios como um brinco. Lida com o seu quinhão de pai com muita competência. Estava, de fato, levando a vida que pediu a Deus, a sua versão do paraíso. É assim que vivem os bem-sucedidos. São bons-cidadãos. Sentem-se afortunados. Sentem-se gratos. Deus está sorrindo lá de cima para eles. Existem problemas, eles dão um jeito. E de repente tudo muda e fica impossível. Nada está sorrindo lá de cima para ninguém. E quem é que pode dar um jeito nisso? Ali estava alguém despreparado para o caso de a vida ser infeliz, muito menos para o impossível. Mas quem é que está preparado para o impossível que vai acontecer? Quem é que está preparado para a tragédia e para o absurdo do sofrimento? Ninguém. A tragédia do homem despreparado para a tragédia – esta é a tragédia do homem comum. (p. 104)

Três gerações. Todas prosperando. O trabalho. A economia. O êxito. Três gerações entusiasmadas com a América. Três gerações se integrando estreitamente com um povo. E agora, na quarta, tudo isso se transforma em coisa nenhuma. A completa devastação do mundo. (p. 273)

É o irmão quem lhe diz certo dia: “Você queria a Miss América? Bem, você a conseguiu, e da forma mais chocante: ela é a sua filha!” A pastoral americana é a própria filha, é a bomba que está sempre prestes a explodir e a acabar com o sonho da American way of life. Merry trouxe a guerra para o lar que o Sueco sonhou em construir na idílica Old Rimrock e desconstruiu todas as fantasias que encobriam o olhar de Seymour Levov.

Ele entendera como é improvável que possamos vir uns dos outros e como é improvável que venhamos mesmo uns dos outros. Nascimento, sucessão, as gerações, a história – totalmente improvável.
(...)
O Sueco havia acreditado que a maior parte do mundo era ordem e que só uma pequena parcela fosse desordem. Ele havia aprendido com atraso. (p. 473)

            Se, por um lado, ele podia controlar a fabricação de luvas e fazer com que estas se adequassem perfeitamente às mãos das senhoras, por outro, nada mais havia que ele pudesse controlar, sequer a si próprio, como ele supunha. Porque a vida, a história, é improvável.      
   
Philip Roth (1933-)