sábado, 21 de janeiro de 2017

A chave de casa (2007)


LEVY, Tatiana Salem. A chave de casa. Rio de Janeiro: Record, 2014.

            A chave de casa é o romance de estreia da autora brasileira Tatiana Salem Levy, o qual trata da questão da memória, da herança que é passada no silêncio, do luto e da dor. De antemão, ao lermos a epígrafe do romance – um poema de Emily Dickinson – já antevemos o tema da narrativa, que gira em torno da impossibilidade de o tempo fechar uma ferida.  
            Tudo começa quando a personagem-narradora recebe do avô uma chave. Ele passou a chave para a neta porque não queria se desfazer do objeto que o remetia ao passado, à casa que ele deixara para trás na Turquia. Por já ser um homem velho, optou por transmitir a sua história para um descendente.
            Em posse da chave, a personagem se sente no lugar de herdeira, uma vez que lhe foi transmitida uma história que não é sua, mas que, ao mesmo tempo, é. Ela se vê, então, diante de um dilema: O que fazer com a chave e com a história de seu avô? Como esquecer e não esquecer?
            O avô não lhe faz nenhum pedido, porém, a personagem sente que a herança lhe é passada no silêncio. Este, por sua vez, vem carregado de dores e perdas, o que reafirma as palavras de Dickinson: “Dizem que o tempo ameniza./ Isso é faltar com a verdade./ Dor real se fortalece/ Como os músculos, com a idade”. É assim que a personagem, de início, pode afirmar que já nascera velha:

Nasci com cheiro de terra úmida, o bafo de tempos antigos sobre o meu dorso. Falo de um peso que carrego nas costas, um peso que me endurece os ombros e me torce o pescoço, que me deixa dias a fio – às vezes um, dois meses – com a cabeça na mesma posição. Um peso que não é todo meu, pois já nasci com ele, como se toda vez em que digo “eu” estivesse dizendo “nós”. Falo sempre na companhia desse sopro que me segue desde o primeiro dia. (p. 9)  

            Nesse sentido, o romance é bastante interessante, porque nos leva a refletir sobre a construção do “eu”, que não é sem o olhar do outro, sem a história que nos antecede. Em contrapartida, para que o “eu” possa se configurar em um sujeito independente e singular, é necessário também se afastar da história do outro.
Dessa maneira, embora não esquecer seja importante, esquecer é fundamental para seguir adiante e não se ver sempre numa posição de imobilidade. Sendo assim, o sujeito se constrói na tensão entre a memória e o esquecimento, tendo em conta que um não é sem o outro. Vale lembrar ainda que se trata aqui tanto de uma memória da alegria quanto de uma memória da dor, ambas capazes de se fortalecer com o tempo.
Fora esse fio narrativo principal, acompanhamos ainda a experiência de luto da personagem-narradora: seja o luto por ter perdido a mãe, seja o luto de uma relação abusiva com um homem violento que a deixou marcas profundas. Portanto, o que vislumbramos na narrativa são fragmentos de uma memória que pretendem contar a história da família e, sobretudo, a própria história da personagem, que é particular, ainda que esteja imbricada às experiências de outrem.


     Tatiana Salem Levy (1979- )

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Pastoral Americana (1997)

                                                  

ROTH, Philip. Pastoral Americana. Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

            Pastoral americana é um romance de quase 500 páginas, dividido em três partes: “Paraíso relembrado”; “A queda”; e “Paraíso perdido”. O romance conta a história de Seymour Levov, mais conhecido pelo apelido de “Sueco”; protagonista que simboliza a derrocada do sonho americano.
            Nathan Zuckerman, o alter-ego de Philip Roth, tem um encontro com seu ídolo da infância: o Sueco. Este lhe escreve uma carta, solicitando-lhe um encontro, porque quer que a história de seu pai, recentemente falecido, e a história da fábrica de luvas, sejam narradas por um escritor reconhecido pela crítica. Zuckerman aceita encontrá-lo, porque sempre foi fascinado pela figura do Sueco, que outrora fora campeão do time de beisebol da escola secundária de Newark.
            Atleta brilhante, judeu, loiro de olhos azuis, alto e belo, Seymour Levov representava a esperança, a fantasia de uma vida americana distante da guerra e de quaisquer dissabores, sobretudo para os judeus, que enxergavam na América a possibilidade de um paraíso.
            O encontro, porém, é decepcionante para Zuckerman, tendo em vista que o Sueco, em vez de falar do que lhe afligia e de oferecer ao escritor uma boa história, passa a noite tecendo elogios aos filhos do segundo casamento. Ao longo da narrativa, entenderemos que o silêncio de Levov, ao contrário do que pensa Zuckerman, está repleto de sentidos, além de significar uma dor inominável. Compreendemos, nesse sentido, que a comunicação é falha e que a tentativa de conhecer o outro é sempre imaginária.  
            Algum tempo depois, Zuckerman reencontra um antigo amigo numa reunião de ex-alunos da escola secundária: Jerry, o irmão mais novo do Sueco. Jerry, então, conta a ele que o Sueco faleceu, porque estava enfermo de um câncer em estado terminal. Conta-lhe também sobre a primeira filha de Seymour e Dawn Dwyer: Merry Levov, que em 1968, durante a guerra do Vietnã, aos 16 anos, explodiu um mercadinho e uma agência de correios com uma bomba, matando um inocente.
            Chocado com a história que ouve, a qual desfaz suas fantasias sobre a vida perfeita do Sueco, Zuckerman decide escrever um romance sobre a vida de Seymour Levov. É a partir da imaginação do alter-ego de Pilip Roth que acompanhamos, pois, a trajetória de seu ídolo da infância.
            O Sueco vivia num mar de ilusões. Herdeiro de uma fábrica de luvas de sucesso, rico, portanto; e casado com a miss New Jersey, ou seja, com uma das mulheres mais lindas da cidade, ele pensava que não havia nada que pudesse dar errado em seu lar. Merry, a quarta geração dos Levov, nascera, do ponto de vista dele, para dar continuidade a esse sonho de uma pastoral americana.

Uma esposa linda. Uma casa linda. Cuida dos negócios como um brinco. Lida com o seu quinhão de pai com muita competência. Estava, de fato, levando a vida que pediu a Deus, a sua versão do paraíso. É assim que vivem os bem-sucedidos. São bons-cidadãos. Sentem-se afortunados. Sentem-se gratos. Deus está sorrindo lá de cima para eles. Existem problemas, eles dão um jeito. E de repente tudo muda e fica impossível. Nada está sorrindo lá de cima para ninguém. E quem é que pode dar um jeito nisso? Ali estava alguém despreparado para o caso de a vida ser infeliz, muito menos para o impossível. Mas quem é que está preparado para o impossível que vai acontecer? Quem é que está preparado para a tragédia e para o absurdo do sofrimento? Ninguém. A tragédia do homem despreparado para a tragédia – esta é a tragédia do homem comum. (p. 104)

Três gerações. Todas prosperando. O trabalho. A economia. O êxito. Três gerações entusiasmadas com a América. Três gerações se integrando estreitamente com um povo. E agora, na quarta, tudo isso se transforma em coisa nenhuma. A completa devastação do mundo. (p. 273)

É o irmão quem lhe diz certo dia: “Você queria a Miss América? Bem, você a conseguiu, e da forma mais chocante: ela é a sua filha!” A pastoral americana é a própria filha, é a bomba que está sempre prestes a explodir e a acabar com o sonho da American way of life. Merry trouxe a guerra para o lar que o Sueco sonhou em construir na idílica Old Rimrock e desconstruiu todas as fantasias que encobriam o olhar de Seymour Levov.

Ele entendera como é improvável que possamos vir uns dos outros e como é improvável que venhamos mesmo uns dos outros. Nascimento, sucessão, as gerações, a história – totalmente improvável.
(...)
O Sueco havia acreditado que a maior parte do mundo era ordem e que só uma pequena parcela fosse desordem. Ele havia aprendido com atraso. (p. 473)

            Se, por um lado, ele podia controlar a fabricação de luvas e fazer com que estas se adequassem perfeitamente às mãos das senhoras, por outro, nada mais havia que ele pudesse controlar, sequer a si próprio, como ele supunha. Porque a vida, a história, é improvável.      
   
Philip Roth (1933-)