sábado, 4 de fevereiro de 2017

A marca humana (2002)

ROTH, Philip. A marca humana. Tradução de Paulo Henrique Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.


            O romance A marca humana compõe a trilogia sobre a vida na América do pós-guerra, ao lado dos romances A pastoral americana e Casei com um comunista. Assim como em A pastoral americana, a história de A marca humana é narrada pelo alter ego do autor, Nathan Zuckerman.   
            Dessa vez, o personagem central de Zuckerman é um professor universitário de letras clássicas: Coleman Silk, um homem de setenta anos que vê sua vida profissional e pessoal arruinada por uma acusação de racismo e abuso sexual. Acusação essa que, diga-se de passagem, não se sustenta, como entendemos ao longo da leitura do romance.
            Silk é acusado de racismo por chamar dois alunos negros de spooks, no momento em que fazia a chamada da turma: “Alguém conhece essas pessoas? Elas existem mesmo ou será que são spooks? (p. 15)” O termo se refere a fantasmas, mas também pode ser uma atribuição pejorativa para denominar negros. No caso de Silk, ele faz uso da expressão sem sequer saber que seus alunos são negros, porque, na verdade, os tais alunos nunca foram às aulas deles, de modo que ele usa o termo no sentido de fantasma.
            Apesar disso, o caso provoca um reboliço na Universidade e Silk se vê as voltas com uma acusação infundada de racismo, a qual fora registrada pelos alunos que não assistiam às aulas. Para completar a decepção de Silk, nem os colegas de trabalho o apoiam. Ao contrário, ele chega a se ver perseguido pela diretora do departamento e professora de francês Delphine Roux, que, como diz o narrador, não tem consciência de que ninguém é capaz de alcançar a verdade de cada um.
            A acusação de misoginia e abuso sexual, bem como a de racismo, é infundada, mas se justifica pelo cenário político da época. O ano é 1998, época em que os Estados Unidos foram tomados por uma histeria puritana e moralista, em decorrência do escândalo sexual que envolveu o presidente da República Bill Clinton e a estagiária Mônica Lewinsky, na Casa Branca. Silk não trai a esposa, como fizera Clinton, mesmo porque, ele é viúvo; mas se envolve com uma faxineira da Faculdade Athena supostamente analfabeta, que é bem mais nova do que ele.
            Algumas pessoas (lê-se: principalmente Delphine Roux), ao saberem do relacionamento de ambos, passam a repudiar Silk, sob o argumento de que ele é um velho misógino que quer se aproveitar de uma jovem inocente. Se, por um lado, ele de fato assume uma fala controversa ao afirmar que a moça, Faunia Farley, deve ser boa de cama por já ter sido molestada, por outro, ela de modo algum é uma vítima dele. Faunia se relaciona com Silk por vontade e desejo próprios e, em nenhum momento da narrativa, ela se sente incomodada ao lado dele.
            O romance aponta para uma crítica ferrenha a onda de puritanismo e moralismo que predomina não só na sociedade, mas também na universidade, lugar onde, teoricamente, deveria predominar o pensamento intelectual.

Basta fazer a acusação que ela está provada. Basta ouvir a alegação para que se dê crédito a ela. Não é preciso encontrar uma motivação para o perpetrador, não é preciso que haja nenhuma lógica nem razão. Basta um rótulo. O rótulo é a motivação. O rótulo é a prova. O rótulo é a lógica. Por que Coleman Silk fez isso? Porque ele é x, porque ele é y, porque ele é as duas coisas. Primeiro racista, depois misógino. A esta altura do século XX, já não se pode dizer que ele é comunista, como se fazia antigamente. Um ato de misoginia cometido por um homem que já se mostrou capaz de fazer um comentário racista venenoso, prejudicando uma aluna vulnerável. Isso explica tudo. Isso, e mais a loucura. (p. 368)

Até aqui, talvez eu tenha dado a impressão de que Silk é uma vítima dos acontecimentos, porém, julgando que ainda estou em tempo de me redimir, quero registrar que a narrativa não recorre a clichês maniqueístas, isto é, não se trata de uma história do bem contra o mal, não existem mocinhos nem bandidos. Arrisco-me a dizer que sequer existem oprimidos e opressores no romance de Philip Roth. Os personagens assumem posicionamentos diversos conforme as adversidades da vida.
Coleman Silk tem um segredo, que, aliás, não pretendo revelar neste texto. Esse sim, para lá de questionável e problemático. Zuckerman, o escritor aficionado pela vida de pessoas comuns, entende Silk como um homem que foi capaz de “forjar um destino histórico só para si próprio”, mas que não pôde fugir à história “que está transcorrendo agora no relógio em cada tique-taque”. Dito de outra maneira, Zuckerman quer dizer que ninguém pode escapar ao destino comum, que está interligado ao momento em que se vive. Desse modo, não podemos nos ver livres do fato de que somos homens de nosso tempo, marcados pelos traços de humanidade, que se confundem entre o bem e o mal. Diante disso, quaisquer rótulos caem por terra.

Philip Roth: um escritor necessário e genial, que problematiza questões que, certamente, afetam não só aos americanos ou aos judeus, mas a todos nós. Por fim, concordo com o professor Silk que tem que se ter cuidado com a leitura rasa e apressada que se faz de determinadas obras, para que não as rotulemos a partir de certas nomenclaturas que só contribuem para o empobrecimento do pensamento intelectual.

 Philip Roth (1933 - )

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