sábado, 27 de maio de 2017

A sangue frio (1966)

CAPOTE, Truman. A sangue frio: O relato fiel de um assassinato múltiplo e suas complicações. Tradução de Ivan Lessa. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1966.


            Em 15 de novembro de 1959, quando ocorreu um brutal assassinato na cidade de Holcomb, no estado do Kansas, o escritor norte-americano Truman Capote já era reconhecido e famoso. A novela Bonequinha de luxo (1958), por exemplo, já havia sido publicada. Capote, que toma conhecimento do crime pelo jornal, encontra na matéria a oportunidade de acompanhar uma história que lhe possibilitará inaugurar um novo gênero literário: o romance de não-ficção.
O escritor decide ir para o Kansas junto com sua amiga Harper Lee, a fim de acompanhar o desenrolar do ocorrido e de entrevistar pessoas próximas à família que fora assassinada, para escrever o seu romance a partir de uma reportagem. A família era composta pelo pai Herbert Clutter, pela mãe Bonnie Clutter e pelos filhos Kenyon, Nancy, Beverly e Eveanna, sendo que as duas últimas não moravam mais com os pais, de modo que foram as únicas sobreviventes do assassinato.
O romance descreve o crime de maneira bem realista, porque explicita com riqueza de detalhes o estado em que os cadáveres foram encontrados: amarrados e amordaçados, com marcas de tiros de espingarda. Se, por um lado, nos sensibilizamos com a dor daqueles que sentiram a morte dos Clutter, por outro, dificilmente deixamos de ter simpatia pelos assassinos. Isso porque, em A sangue frio, vislumbramos os diferentes pontos de vista dos personagens dessa história macabra.  
Os assassinos são Perry Smith e Richard Hickock, frequentemente chamado de Dick. O protagonismo da história é destinado a Perry, que tendo passado por uma infância difícil, apresenta certo desequilíbrio emocional (dizem que, na época, Capote chegou a nutrir um sentimento de paixão por ele). Perry acredita em tesouros escondidos, faz xixi na cama e chora como se ainda fosse criança; além disso, ele gosta de desenhar e de escrever em um diário. Trata-se de um personagem que teve sonhos e talentos abortados por conta das circunstâncias adversas da vida.
No oposto extremo, encontra-se Nancy, que também teve sua vida abortada, mas que, diferente de Perry, recebera instrução e crescera em uma família abastada que teria dado respaldo a todos os sonhos dela, caso estes não tivessem sido interrompidos. Com isso, Capote mostra como duas vidas completamente distintas podem ser esfaceladas.
A sangue frio é um romance que aborda as consequências de um assassinato na vida de pessoas de uma cidade pequena e na vida dos próprios assassinos, problematizando questões como a moral e a pena de morte, que era permitida em Kansas. Na passagem do livro apresentada a seguir, Perry, já condenado à forca, diz a um amigo:  

Os soldados não sofrem de insônia. Matam e ganham medalhas por terem matado. Este bom povo de Kansas quer me matar - e algum carrasco terá prazer em executar o trabalho. É fácil matar - bem mais fácil que passar um cheque sem fundos. Lembre-se que eu conheci os Clutter por uma hora apenas. Se os tivesse conhecido de verdade, talvez me sentisse diferente. Acho que não conseguiria viver comigo mesmo. Mas do jeito que as coisas aconteceram, foi como derrubar alvos num stand de tiro. (p. 326)

            Ao narrar a história desse crime e ao dar voz aos assassinos, Capote coloca em cheque evidências que podemos ter sobre a figura do bandido e nos leva a enxergar que criminosos não são monstros ou malucos como alguns gostariam de supor, mas humanos, como todos os outros. Desse modo, os dois lados da moeda nos são apresentados e percebemos que o instinto assassino faz parte do humano, ainda que ele só aflore em alguns. A diferença é que, enquanto uns saem pela porta da frente, outros saem pela porta de trás e vivem à margem da sociedade.
  
 Truman Capote (1924-1984)

sábado, 6 de maio de 2017

Helena (1876)


ASSIS, Machado de. Helena. São Paulo: Globo, 1997.

            O romance Helena, de Machado de Assis, foi publicado em 1876, mas a narrativa é ambientada em abril de 1850, no Andaraí, bairro do Rio de Janeiro. Trata-se, portanto, de uma narrativa construída em um Brasil já independente, porém, ainda escravocrata e extremamente patriarcal.
            A jovem Helena tem entre dezesseis e dezessete anos e passa a habitar a casa do Andaraí após a morte do Conselheiro Vale, que lhe reivindicou a paternidade e a inseriu em seu testamento como herdeira, para a surpresa da família, que, até então, desconhecia a existência de Helena. A moça, de origem enigmática e suspeita passa, pois, a participar da vida da casa grande, como um imigrante que chega para desestabilizar a suposta configuração harmônica de um meio social.
            Helena, embora reproduza os estereótipos de feminilidade associados à figura da mulher (ela é sensível, frágil e delicada), vai além, ao se mostrar independente na maneira de pensar e ao questionar, em alguns momentos, seu irmão, Estácio, que é a figura de autoridade da família, estando abaixo apenas do padre, outra personagem importante do romance, sobre a qual, entretanto, não me debruçarei. Não quero dizer com isso que a protagonista encarne uma rebelde ou uma contestadora da sociedade patriarcal, mesmo porque, o contexto não lhe permitiria; de todo modo, é inegável que Machado constrói uma personagem que produz um ruído na suposta solidez dessa sociedade.  
            O romance machadiano discute escravidão, liberdade, bem como relações sociais e amorosas que se constroem a partir dos limites impostos por aquela estrutura de sociedade. Em uma bela passagem da narrativa, enquanto caminha com seu irmão, Estácio, Helena o questiona sobre o fato da riqueza, para ele, ser motivo de umas das maiores felicidades da Terra. Na perspectiva do rapaz, “a riqueza compra até o tempo”, já que, ele, em posse de um cavalo, pode fazer em menos tempo o mesmo trajeto que um escravo levará uma hora ou mais, a pé. Em contrapartida, Helena lhe diz:

O essencial não é fazer muita cousa no menor prazo; é fazer muita coisa aprazível ou útil. Para aquele preto o mais aprazível é, talvez, esse mesmo caminhar a pé, que lhe alongará a jornada, e lhe fará esquecer o cativeiro, se é cativo. É uma hora de pura liberdade. (p. 37)

            Esse diálogo é emblemático para mim porque, ao longo da narrativa, parece-me sempre estarem em questão os diversos sentidos sobre o que é ser um escravo e sobre o que é ser um homem livre e bem-sucedido. Não seriam todos escravos? Na configuração do romance, creio que sim. Estácio é escravo de leis terrestres e divinas que o impedem de se unir à mulher que ele ama, e, Helena é escrava de um destino que não escolheu e se encontra, a todo o momento, despossuída daquilo que é basilar em quaisquer sujeitos: o desejo. Em uma sociedade escravocrata e patriarcal, ela, como mulher, deve obediência aos senhores, o que a impossibilita de assumir as rédeas de suas vontades e desejos. Em outras palavras, Helena é sempre refém do desejo do outro, não à toa o seu fim é trágico. Para corroborar o que digo, atenho-me a um trecho da fala de Helena: “Há criaturas tão malfadadas, que aqueles mesmos que as desejam fazer venturosas não alcançam mais do que preparar-lhe o infortúnio” (p. 178), ou seja, é comum que, em defesa do amor, de se querer o bem ao próximo, faça-se o mal, quando, bastava, para se fazer o bem, oferecer uma escuta e um espaço para a voz e para o desejo do outro.      
            Helena é um belíssimo romance, de enredo simples, mas que nos deixa sobressaltado e preso até a última página; é daquelas histórias que você tem pressa de terminar para descobrir o desfecho, mas que lamenta quando enfim termina a leitura. É lindo, comovente e trágico!  


Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908)