sábado, 6 de maio de 2017

Helena (1876)


ASSIS, Machado de. Helena. São Paulo: Globo, 1997.

            O romance Helena, de Machado de Assis, foi publicado em 1876, mas a narrativa é ambientada em abril de 1850, no Andaraí, bairro do Rio de Janeiro. Trata-se, portanto, de uma narrativa construída em um Brasil já independente, porém, ainda escravocrata e extremamente patriarcal.
            A jovem Helena tem entre dezesseis e dezessete anos e passa a habitar a casa do Andaraí após a morte do Conselheiro Vale, que lhe reivindicou a paternidade e a inseriu em seu testamento como herdeira, para a surpresa da família, que, até então, desconhecia a existência de Helena. A moça, de origem enigmática e suspeita passa, pois, a participar da vida da casa grande, como um imigrante que chega para desestabilizar a suposta configuração harmônica de um meio social.
            Helena, embora reproduza os estereótipos de feminilidade associados à figura da mulher (ela é sensível, frágil e delicada), vai além, ao se mostrar independente na maneira de pensar e ao questionar, em alguns momentos, seu irmão, Estácio, que é a figura de autoridade da família, estando abaixo apenas do padre, outra personagem importante do romance, sobre a qual, entretanto, não me debruçarei. Não quero dizer com isso que a protagonista encarne uma rebelde ou uma contestadora da sociedade patriarcal, mesmo porque, o contexto não lhe permitiria; de todo modo, é inegável que Machado constrói uma personagem que produz um ruído na suposta solidez dessa sociedade.  
            O romance machadiano discute escravidão, liberdade, bem como relações sociais e amorosas que se constroem a partir dos limites impostos por aquela estrutura de sociedade. Em uma bela passagem da narrativa, enquanto caminha com seu irmão, Estácio, Helena o questiona sobre o fato da riqueza, para ele, ser motivo de umas das maiores felicidades da Terra. Na perspectiva do rapaz, “a riqueza compra até o tempo”, já que, ele, em posse de um cavalo, pode fazer em menos tempo o mesmo trajeto que um escravo levará uma hora ou mais, a pé. Em contrapartida, Helena lhe diz:

O essencial não é fazer muita cousa no menor prazo; é fazer muita coisa aprazível ou útil. Para aquele preto o mais aprazível é, talvez, esse mesmo caminhar a pé, que lhe alongará a jornada, e lhe fará esquecer o cativeiro, se é cativo. É uma hora de pura liberdade. (p. 37)

            Esse diálogo é emblemático para mim porque, ao longo da narrativa, parece-me sempre estarem em questão os diversos sentidos sobre o que é ser um escravo e sobre o que é ser um homem livre e bem-sucedido. Não seriam todos escravos? Na configuração do romance, creio que sim. Estácio é escravo de leis terrestres e divinas que o impedem de se unir à mulher que ele ama, e, Helena é escrava de um destino que não escolheu e se encontra, a todo o momento, despossuída daquilo que é basilar em quaisquer sujeitos: o desejo. Em uma sociedade escravocrata e patriarcal, ela, como mulher, deve obediência aos senhores, o que a impossibilita de assumir as rédeas de suas vontades e desejos. Em outras palavras, Helena é sempre refém do desejo do outro, não à toa o seu fim é trágico. Para corroborar o que digo, atenho-me a um trecho da fala de Helena: “Há criaturas tão malfadadas, que aqueles mesmos que as desejam fazer venturosas não alcançam mais do que preparar-lhe o infortúnio” (p. 178), ou seja, é comum que, em defesa do amor, de se querer o bem ao próximo, faça-se o mal, quando, bastava, para se fazer o bem, oferecer uma escuta e um espaço para a voz e para o desejo do outro.      
            Helena é um belíssimo romance, de enredo simples, mas que nos deixa sobressaltado e preso até a última página; é daquelas histórias que você tem pressa de terminar para descobrir o desfecho, mas que lamenta quando enfim termina a leitura. É lindo, comovente e trágico!  


Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908)

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