quinta-feira, 22 de junho de 2017

Teoria King Kong (2006)

DESPENTES, Virginie. Teoria King Kong. Tradução de Márcia Bechara. São Paulo: n-1 edições, 2016.

            Um tapa na cara dos hipócritas: é a primeira frase que me vem à mente após a leitura do livro da escritora francesa Virginie Despentes. A autora escreve de maneira simples, quase como se buscasse estabelecer uma conversa com seus leitores, a fim de explicitar o posicionamento dela como feminista. Para isso, ela dialoga com outras feministas, a saber: Camille Paglia, Angela Davis, Claire Carthonnet, Judith Butler e etc.
            Despentes parte de sua própria experiência de vida para abordar o feminismo, de modo que, além de uma base teórica, há uma base testemunhal na narrativa dela. Nascida em 1969, a autora foi fortemente influenciada pela cultura punk, que a impulsionou a buscar a própria independência, mesmo antes de ela entrar em contato com o feminismo. Ainda nova Despentes decidiu se aventurar pela vida que há fora de casa, refutando a ideia de que mulheres devem ficar circunscritas à vida doméstica.
            Tal decisão não foi sem consequências: ela foi estuprada. E, é a partir dessa experiência, que Despentes propõe uma reflexão sobre o estupro, dialogando com Paglia. Aquela afirma que esta foi “a primeira a tirar o estupro do horror absoluto, do não dito” e a circunscrever o estupro em “uma circunstância política”. De acordo com Despentes, “Paglia transformava tudo: não se tratava de negar nem de sucumbir, se tratava de viver com.” (p. 36) Nesse sentido, o estupro deve ser tirado da esfera do drama e ser considerado como algo fundante na condição da mulher; ademais, deve ser nomeado como aquilo que é: um estupro, tendo em vista que aquilo que não é nomeado está à margem do simbólico. É necessário que a violência seja significada para que possa haver possibilidade de cura.
            Dando continuidade a reflexão, a escritora aponta para a hipocrisia daqueles que argumentam que a pornografia alimenta a cultura do estupro: Dizem com frequência que a pornografia aumenta o número de estupros. Hipócrita e absurdo. Como se a agressão sexual fosse uma invenção recente, e como se tivesse sido introduzida em nossos espíritos através dos filmes. (p. 30) Do ponto de vista da autora, a agressão contra a mulher não pode ser lida como “um fenômeno recente ou próprio de um grupo específico”. Além disso, Despentes aponta para a desonestidade de se ver a pornografia como um gênero homogêneo, quando, na verdade, há diversas maneiras de se fazer pornografia.  
            A autora acrescenta que a defesa da censura da pornografia e da prostituição é sustentada pela moral judaico-cristã, que culpabiliza aqueles que buscam resistir. Despentes se posiciona contra a hipocrisia e a moral vigente, defendendo o direto de venda do sexo e a legitimação dessa escolha profissional:
            As condições de trabalho das atrizes, os contratos aberrantes que elas assinam, a impossibilidade de controlar o uso de sua própria imagem quando abandonam a profissão, ou de serem remuneradas quando sua imagem é utilizada, essa dimensão da dignidade feminina não interessa aos censores. O fato de não existir nenhum centro de apoio especializado em que elas possam encontrar informações diversificadas sobre as particularidades de sua profissão não interessa aos poderes públicos. Há uma dignidade que os preocupa, e uma outra que não interessa a ninguém. Mas o pornô é feito com carne humana, a carne da atriz. E, no final, ele só suscita um único problema moral: a agressividade com que são tratadas as atrizes pornô. (p. 80-81)
            A escritora aponta que essa vitimização da profissional do sexo é falsa, bem como a preocupação com a dignidade da mulher. Na perspectiva da autora, o que deve haver são melhores condições e direitos trabalhistas para as mulheres que decidem se prostituir.
Em Teoria King Kong, Despentes argumenta ainda que a discriminação da prostituição serve de base para sustentar a instituição do casamento. Nessa perspectiva, o casamento seria mais opressor do que a prostituição, uma vez que a puta, terminado o serviço, pode, pelo menos, “ir dar uma volta tranquila” (p. 63), diferente da mulher casada, que abdica de sua independência para se encarcerar em um padrão de vida heteronormativo.  
No fim das contas, para a autora, o machismo se trata sobretudo de um problema de luta de classes. É necessário que o corpo das mulheres seja controlado pelos homens para que se mantenham os princípios e a estrutura da sociedade burguesa; por outro lado, o machismo também afeta os corpos dos homens, que são controlados pelos meios de produção em tempos de paz, ou, pelo Estado, em tempos de guerra. Desse modo, o feminismo é urgente para possibilitar uma revolução social, da qual todos façam parte.
Teoria King Kong diz respeito a essa necessidade que temos de uma revolução feminista. Despentes explica, a partir de uma breve análise do filme de Peter Jackson, o porquê do uso metafórico de King Kong:
 King Kong, aqui, funciona como a metáfora de uma sexualidade que precede a distinção de gêneros tal como politicamente imposta no final do século XIX. King Kong encontra-se além da fêmea e além do macho. Esse ser está na encruzilhada entre o homem e o animal, o adulto e a criança, o bom e o mau, o primitivo e o civilizado, o branco e o preto. Híbrido, diante da obrigatoriedade do binário. A ilha do filme é a possibilidade de uma forma de sexualidade polimorfa e superpoderosa. Aquilo que o cinema deseja capturar, exibir, desnaturalizar e depois exterminar. (p. 94)
A revolução terá acontecido, portanto, quando formos capazes de dinamitar a distinção de gêneros que nos foi imposta. Para isso, é necessário que retornemos à ilha que precede a civilização e nos encontremos com o que há de híbrido e peludo em nós.
Virginie Despentes (1969- )

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