domingo, 2 de julho de 2017

A paixão segundo G.H. (1964)

LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.


            A paixão segundo G.H. narra a via crucis de uma mulher que se depara com a desorganização de sua “montagem humana”. Ao se deparar com a barata no quarto da empregada, a personagem é acometida de uma desestabilização que a tira de seu mundo organizado, domesticado e semanticamente estabilizado. Assim como no conto O Amor, a personagem se vê diante de algo que a leva para uma experiência sensorial e inconsciente. Não à toa, em A paixão segundo G.H., a personagem se sente como uma cega perdida, porque, novamente, o cego aparece como aquele que vive e/ ou masca chiclete sem olhos que possam guiá-lo e, portanto, mantê-lo em uma determinada trilha. Sentir-se como um cego é se submeter à experiência do inconsciente, é falar em “linguagem sonâmbula”.
            G.H. é uma mulher independente, de classe abastada e que vive em uma cobertura. Apesar de sua posição social, ela não está à margem do que a sociedade entende para uma mulher:
(...) a mim se referem como a alguém que faz esculturas que não seriam más se tivesse havido menos amadorismo. Para uma mulher essa reputação é socialmente muito, e situou-me, tanto para os outros como para mim mesma, numa zona que socialmente fica entre mulher e homem. (p. 25)
            O máximo que a sociedade concede a uma mulher talentosa e independente financeiramente é um lugar que fica entre mulher e homem, ou seja, ela não é uma mulher desprivilegiada como outras, mas também não vai além do amadorismo, ainda que o dinheiro lhe proporcione certa liberdade. Como Deus e como artista, G.H. dá forma as coisas e, portanto, pensa com as mãos. A escultura é a metáfora de um mundo que ela cria para si própria.
            Nesse sentido, o apartamento onde ela mora também reflete esse mundo que ela criou para si:
            O apartamento me reflete. É no último andar, o que é considerado uma elegância. Pessoas do meu ambiente procuram morar na chamada “cobertura”. É bem mais que uma elegância. É um verdadeiro prazer: de lá domina-se uma cidade. Quando essa elegância se vulgarizar, eu, sem sequer saber por que, me mudarei para outra elegância? Talvez. Como eu, o apartamento tem penumbras e luzes úmidas, nada aqui é brusco: um aposento precede e promete o outro. Da minha sala de jantar eu via as misturas de sombras que preludiavam o living. Tudo aqui é a réplica elegante, irônica e espirituosa de uma vida que nunca existiu em parte alguma: minha casa é uma criação apenas artística. (p. 29)
            Arrumar o apartamento ou fazer esculturas é como se igualar a Deus, porque é uma maneira de dar forma ao mundo. Com efeito, é como se a realidade fosse uma criação artística. Porém, parte dessa criação é realizada por operários e empregados, o que me faz lembrar a afirmação de Benjamin de que todo monumento cultural é também um monumento de barbárie. O edifício em que G.H. mora reflete o trabalho desses operários, bem como a arrumação de seu apartamento reflete o trabalho da empregada que até então trabalhava para ela.
            O enredo básico do romance se constrói a partir do momento em que a protagonista entra no quarto da empregada, que não se encontra mais na casa. Dentro do quarto, G.H. se depara com um desenho a carvão na parede: um homem nu, uma mulher nua e um cachorro. Na verdade, há apenas os contornos dos corpos e, por isso, a personagem conclui que eles estão nus. Além disso, as figuras não tem ligação uma com a outra: “cada figura olhava para a frente, como se nunca tivesse olhado para o lado, como se nunca tivesse visto a outra e não soubesse que ao lado existia alguém”. (p. 39)
            Tendo em vista as palavras da narradora-personagem, que chega a afirmar que o desenho não era um ornamento, mas uma escrita, podemos concluir que ambas não se olhavam, não se conheciam, o que explica, inclusive, o fato de que a personagem demora a se recordar do nome da empregada: Janair. Parece-me que, em A paixão segundo G.H., a condição humana está relacionada a impasses de gênero, de classe e de raça. Janair, segundo a própria narradora, era uma mulher “preta”, “invisível”, que “tinha quase que apenas a forma exterior, os traços que ficavam dentro de sua forma eram tão apurados que mal existiam: ela era achatada como um baixo-relevo preso a uma tábua”. (p. 40)
            O quarto a perturbou porque, embora estivesse limpo, ele se opunha à elegância do apartamento, ele representava “o retrato de um estômago vazio” (p. 42). Ademais, o desenho feito por Janair foi o modo que esta encontrou de reafirmar sua existência naquela casa. Se não fosse pelo desenho, a existência de Janair teria sido apagada como muitos outros já foram apagados e silenciados na história da civilização.   
            É nesse mesmo quarto que a personagem se depara com a barata, a qual ela tentou matar com insucesso, porque a barata sobreviveu. De acordo com a narradora-personagem, a barata “parecia uma mulata à morte”. (p. 55) Mas, assim como muitas outras mulheres negras e mesmo brancas, o animal “imundo” sobreviveu, à revelia da barbárie humana.
            Tocar o imundo é praticar o ato proibido e se submeter a um processo de desumanização, que faz parte dos seres:
            A barata é um ser feio e brilhante. A barata é pelo avesso. Não, não, ela mesma não tem lado direito nem avesso: ela é aquilo. O que nela é exposto é o que em mim eu escondo: de meu lado a ser exposto fiz o meu avesso ignorado. (p. 76)
            G.H. mantinha-se em uma vida na qual ela se sustentava por uma terceira perna imaginária, contudo, ao se deparar com o quarto da empregada, com o desenho e com a barata que nele habitava, ela se encontrou com o que havia de desumano nela e se entregou ao nada, ao imundo. Diante da barata, ela se viu em um processo de descoberta em que se encontrava com “a vida do mundo”.  Nesse processo, G.H. pôde ainda se deparar com o seu próprio silêncio e descobrir um prazer “que não sabe que é prazer”.
            A partir dessa reflexão, a verdadeira criação artística não seria o controle da forma, mas o contato com o inexpressivo, uma vez que só este possibilita o verdadeiro prazer: “quando a arte é boa é porque tocou no inexpressivo, a pior arte é a expressiva”. (p. 143) Ademais, a identidade feminina não se constrói por meio do humano, mas por meio do encontro com o abismo, com o que é desumano e imundo, porque, por mais paradoxal que seja, só a desumanização pode constituir a humanização.
            Quero o inexpressivo. Quero o inumano dentro da pessoa; não, não é perigoso, pois de qualquer modo a pessoa é humana, não é preciso lutar por isso: querer ser humano me soa bonito demais.
            Quero o material das coisas. A humanidade está ensopada de humanização, como se fosse preciso; e essa falsa humanização impede o homem e impede a sua humanidade. Existe uma coisa que é mais ampla, mais surda, mais funda, menos boa, menos ruim, menos bonita. Embora também essa coisa corra o perigo de, em nossas mãos grossas, vir a se transformar em “pureza”, nossas mãos que são grossas e cheias de palavras. (p. 158)

            Ser inumano é ser capaz de se organizar dentro do fato de “ter dor de estômago”, isto é, a desumanização é necessária para que sejamos capazes de olhar para o outro. Na minha leitura, portanto, A paixão segundo G.H. aborda a via crucis de uma personagem em processo de desumanização, para se descobrir humana e incapaz de um ato de heroísmo, ou seja, por mais que ela coma a barata, ela não consegue dar conta do mundo.  
Clarice Lispector (1920-1977)

Nenhum comentário:

Postar um comentário