sábado, 22 de julho de 2017

Um homem torturado - Nos passos de frei Tito de Alencar (2014)

DUARTE-PLON, Leneide. MEIRELES, Clarisse. Um homem torturado: Nos passos de frei Tito de Alencar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.




            A biografia de frei Tito de Alencar, ou, reportagem biográfica, como preferem as autoras, é, antes de tudo, um relato sobre a natureza da violência praticada durante a ditadura militar brasileira. A linguagem do livro é clara e direta, de modo que, por mais pesado que seja o tema tratado, a leitura é fluida e agradável. Em alguns momentos, a narrativa é intercalada por travessões que representam as entrevistas feitas pelas autoras com pessoas que conviveram com frei Tito e que, pelo menos até 2012 (data das entrevistas), estavam vivas.
            Frei Tito nasceu em Fortaleza (1945) em uma família numerosa. Ele foi fortemente influenciado por sua irmã Nildes, que, como irmã mais velha, participou da educação do rapaz e o levou a seguir a fé católica. Como se sabe, além de muito religioso, frei Tito era alinhado com as ideias de esquerda da época, o que em parte também se deve a família dele, que se posicionava politicamente ao lado da esquerda.
           Em 1964, quando estourou o golpe no Brasil, Tito de Alencar, embora novo, já era um rapaz politizado. Em 1968, um ano importante não só no Brasil – em nosso país, ocorreu a morte do estudante Edson Luís de Lima Souto, a passeata dos cem mil, o congresso da UNE e o AI-5 – mas também internacionalmente, frei Tito participou da organização do congresso clandestino da UNE no sítio de Ibiúna, o que provocou a sua prisão.
           Frei Tito foi preso no dia 4 de novembro de 1969 (mesmo dia da morte de Marighella) pelo delegado Fleury, junto com outros dominicanos. Enquanto preso, ele passou pelo DOPS, pela prisão Tiradentes e pela OBAN (Operação Bandeirantes), que pouco tempo depois seria sucedida pelo Doi-Codi, o qual foi chefiado pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra entre outubro de 1969 e dezembro de 1973.
               No ano seguinte, em 1970, ocorreu o terceiro e último sequestro político durante o regime militar: o sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher, pela VPR, sob a liderança de Carlos Lamarca. Por conta dessa captura, frei Tito se livrou da prisão e fez parte do grupo de setenta pessoas que foram para o exílio em troca da vida do embaixador suíço.
            No entanto, o exílio foi uma espécie de segunda tortura para o frei, que já tinha sido brutalmente torturado nas prisões pelas quais passou. Tito de Alencar chegou ao Chile em janeiro de 1971 e, até se instalar na França, chegou a passar ainda por Roma. Na França, ele foi recebido pelos dominicanos e se instalou em dois conventos diferentes: Convento Saint-Jacques e Convento Sainte-Marie de la Tourette.
    Frei Tito morreu na época em que morava nesse segundo convento. Ele não suportou lidar com as torturas que sofreu e acabou se suicidando. A tortura o destruiu de tal modo que o rapaz passou a se sentir frequentemente perseguido pelo delegado Fleury.
          Para o psiquiatra-psicanalista que tratou de frei Tito, Dr. Jean-Claude Rolland, “Tito estava condenado à forma mais violenta de exílio: tinham-no exilado da língua dos homens” (p. 365). Na situação de sofrimento em que o dominicano se encontrava, ele não conseguia mais se expressar por meio da linguagem, apenas por meio de sintomas que sinalizavam “uma história a ser decifrada” (p. 365), segundo o psicanalista.
             Ainda de acordo com o Dr. Jean-Claude Rolland, ele afirma que “para compreender os efeitos da tortura sobre o espírito de um homem e sobre seu destino, é preciso analisar os diferentes aspectos que constituem o ato de torturar” (p. 367). Para ele, o ato de torturar pode ser entendido com uma loucura. Esta, por sua vez, floresce mais comumente em determinados períodos da história. Nessa perspectiva, em governos totalitários, por exemplo, a sociedade tem mais chance de enlouquecer e produzir loucos que se tornam torturadores.
            O torturador é aquele que aplica sevícias físicas e psicológicas, no intuito de destruir a identidade da vítima. Analisando as torturas pelas quais passou frei Tito, o analista afirma:

(...) essas sevícias psicológicas consistem também no uso indevido de gestos simbólicos para confundir um pouco mais a razão enfraquecida da vítimas: quando o torturador introduz na boca de Tito um eletrodo dizendo que lhe apresenta a hóstia, o corpo de Cristo, atinge-se o que a aporia do ato da tortura. Trata-se aí de penetrar na intimidade do outro, de quebrar a integridade de seu espírito e de seu corpo, de anular sua individualidade e profanar o âmago de sua crença e seus ideais. A violência da tortura consiste in fine nessa recusa totalitária da “alteridade do outro”. Ela é uma barbárie da negação, do negacionismo (p. 368).

            Para a ditadura, frei Tito representava um símbolo que precisava ser destruído e apagado por meio da tortura. Esta, como ressalta o médico, “é uma prática sobre um indivíduo, seu ser, seu corpo, sua história” (p. 368), além de ser uma ideologia grupal, legitimada politicamente. A tortura, portanto, busca aniquilar e negar a diferença. Por outro lado, o psiquiatra-psicanalista pontua que “se eu destruo no outro o que ele tem de diferente em mim, eu também destruo, ao mesmo tempo, o que ele tem de semelhante” (p. 369).  Ele diz mais:

 A incoerência do pensamento que embasa a prática da tortura é uma perturbação do pensamento, uma doença da alma. É mais fácil pensar que ela é uma perversão do que reconhecer que ela é uma loucura que requer uma exploração científica e um tratamento (p. 369).

            Para o Dr. Jean-Claude Rolland a tortura é, pois, uma loucura coletiva, legitimada em determinados períodos históricos. Para quem entra em contato com esse texto, que faz parte do livro de reportagem biográfica sobre o frei Tito, surge uma questão: como explicar o nosso Brasil contemporâneo, no qual pessoas são torturadas mais do que na época da ditadura militar (segundo estudos da socióloga norte-americana Ksthryn Sikkink)¹?
            Como se pode notar, a tortura continua sendo uma questão crucial para os direitos humanos. Nesse sentido, ler a biografia de frei Tito é uma oportunidade não só de se informar sobre o período do regime militar brasileiro, mas de se compreender que lutar contra a tortura é um dever de todos.
         
¹ Essa informação foi tirada do prefácio feito por Vladimir Safatle ao livro A tortura como arma de guerra (2016), de Leneide Duarte-Plon.

Frei Tito de Alencar (1945-1974)

Leneide Duarte-Plon

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